Kestrel, o veleiro inglês naufragado, encalhado, enterrado em Santos

Incrível. Nos últimos meses, passei por essa área isolada sem saber do que se tratava. Coisa de cinema ou de literatura! Escreverei um conto a respeito, realistaventureiro à maneira de Melville ou fantástico à maneira de Borges — que, aliás, em “O Aleph”, inventou que Richard Francis Burton, que realmente exerceu em Santos o cargo de cônsul britânico na década de 1860, teria escrito manuscrito preservado numa biblioteca santista sobre pontos nos quais todos os demais podem ser vistos… Ou simplesmente escreverei um poema: “Uma forte tempestade te atirou aqui/Nos anos finais do século 19/E agora uma outra tempestade/Te revive novamente/Nos começos do século 21…”
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A área isolada corresponde a uma embarcação enterrada na praia de Santos, canal 6, revelada pela #marébaixa de inícios de Setembro. Estudos atestam com quase todas as certezas que se trata do barco inglês Kestrel, veleiro de três mastros construído em 1871 e encalhado aqui em 11 de fevereiro de 1895, conforme jornais da época noticiaram, como o Santos Comercial, o Comércio de São Paulo e o Correio Paulistano (o Diário de Notícias do Rio de Janeiro, cuja edição de 14 de fevereiro pode ser encontrada digitalizada online, reproduziu o texto do Santos Comercial, que noticia vários pormenores do acontecido).

Por exemplo, sobre os tripulantes: o cozinheiro, o dispenseiro e um marinheiro, que “absolutamente nada podiam fazer para salvar o navio e estamos mesmo em dúvida se procederam mal não aceitando o socorro, logo em princípio oferecido pelo Rápido.” O antigo jornalista, irônico (só podia ser santista), diz que tem certeza disso pelo modo como um deles — “talvez o dispenseiro” — estava tranquilo, “sentado sobre a escotilha, pernas estendidas ao longo do convez”, como se tivesse “cumprido o seu dever”, pela manhã baforando o seu “cachimbo enorme de dous metros no máximo”. E continua, em frase hilária: “Nenhum dos marujos componentes da fleugmática trindade de bordo demonstrava-se possuído do menor abalo.” Estranhamente, a velha notícia diz que o capitão “estava ausente”, ou seja, não estava a bordo, mas relata depois: “O capitão estava em terra com os demais tripulantes… à espera de vento.”

Hoje vi que, além dos nossos jornais brasileiros contemporâneos, jornais internacionais, como o Daily Mail e o The Times, noticiaram mês passado a descoberta com riqueza de detalhes. Há vários vídeos no YouTube, incluindo um que mostra a bela vista praiana de helicóptero (https://youtu.be/YXfckQpAGCQ).

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Não é a primeira vez que isso ocorre em Santos, mas retirar toda uma embarcação com o máximo de cuidado e depois de reparo possível para, quem sabe, preservá-la num museu, custa alguns milhões, além de toda burocracia institucional entre Marinha, secretarias e Prefeitura. (Será que a iniciativa privada teria interesse?…)

Escrevi que não é a primeira vez. Um barco chamado Recreio naufragou nos anos 70 e seus destroços ainda estão lá, não muito longe deste, nas areias finas, úmidas e cheias de escuro mineral pesado de Santos.

Ps.: Estou na cidade, mas chove e não poderei – por enquanto – ir ver se o mar já cobriu novamente a embarcação.

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