Por um rejunescimento da macropolítica (de novo)

Em diversos textos deste blog, e mesmo em algumas parcelas da minha poesia e ficção, tenho colocado a necessidade ou possibilidade de rejunescimento de termos e processos internos e externos do homem. Não sei até que ponto sou repetitivo ou se através dessa repetição apenas me aventuro num aprofundamento dessa libertação, para que então me surja uma conclusão outra, nova, inédita, que não deixa de ser também um outro viver.

Como temos percebido, a chamada “macropolítica” age costumeiramente de forma tão mesquinha que deveria ser vista como “micropolítica”, pois apequena o homem e, no nosso caso, o brasileiro. Nietzsche identificou isso muito bem, primeiramente em Humano, Demasiado Humano, e, mesmo indiretamente, em todas suas obras.

Para Nietzsche, na Grande Política está implicada a produção de sentido e de realidade, a potência singular do indivíduo, contra a apatia, o cansaço, a melancolia, isto é, contra o niilismo passivo, ou mesmo contra a promessa de uma outra vida longe do presente, do corpo e do agora (que a moralidade cristã e as religiões fazem há milênios). As instituições políticas, de forma mais ou menos parecida, roubam nosso desejo, como se política fosse apenas o que acontece nessa esfera descolada de nós, cabendo tão somente o combate rasteiro e acumulado em clichês que não enriquecem a vida. Os ativismos e militâncias muitas vezes lançam sombras sobre o presente, dizendo que somente quando isto ou aquilo acontecer é que aí, sim, ficaremos bem, pois agora está uma merda e cabe lamentar, mesmo nas melhores intenções e projetos, restando, em face das desilusões práticas, o ressentimento e o combate rasteiro. Os fundamentalistas e conservadores, por sua vez, tentam instrumentar o Estado para legislar e interferir nas individualidades segundo normas, regras e moralidades tacanhas, aprisionadoras, de forma nazista, fascista, tirana, autoritária.

Quanta pobreza de espírito! Não.

Todo homem realmente livre vai na contramão disso tudo, não obe-desce a esse mecanismo, trazendo a política para algo mais próximo de si, efetuador, gerador de acontecimento, independentemente do sistema ou numa relação precisa e direta com ele que não seja subserviente, mas usada e dominada de alguma forma pelo indivíduo; mesmo o sistema estrito senso da política pode ser quebrado por essa atuação singular.

Porque para a política do senso comum basta o combate, a fantasia, o rebaixamento, o emponderamento, mas e para o modo de existir? É preciso investimento da filosofia do movimento, que, automaticamente, é ação política, já que tanto dentro de um contexto tido como “ruim” ou no melhor dos governos, a problemática de existir, isto é, a capacidade de movimentação potente, essencialmente não se altera.

Da mesma forma, a ótica que você assume a respeito de algum acontecido da sua vida faz toda a diferença na sua relação com o acontecido; assim também com o acontecer, onde você tem papel participativo.

Os temas progressistas da esquerda me serão sempre caros, o entusiasmo de uma Renda Básica Universal que remodele completamente o sistema humano coletivo atual também, mas na produção de libertação é primordial não se sabotar, não ressentir metas e sentidos em face de esferas descoladas do corpo, do aqui, e do agora.

Ao invés de matar o presente, vivificá-lo. Mas não de qualquer forma. A construção dessa forma é que é tema em aberto, possível, múltplo; qualquer tentativa interessante esbarra, no entanto, na ética e na criatividade.

E toda essa configuração não tem qualquer relação com mero individualismo: toda prática de si é, automaticamente, prática coletiva.

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