GUIMARÃES ROSA E DELEUZE: UM COMENTÁRIO

Estou mergulhado, em plena madrugada, por pura paixão, num estudo bibliográfico do famoso e notável “A Terceira Margem do Rio” para criar um verbete consistente e robusto na Wikipédia, mesmo que ela não me mereça, com sua comunidade pobre, infecunda, inculta e arbitrária (as exceções confirmam a regra), mas é um bem que faço – como já fiz há mais de 10 anos, escrevendo e destacando os verbetes Machado de Assis, Mitologia grega, Elis e Tom, Hamlet, e outros – voluntariamente à cultura e aos leitores e estudantes deste país, já que, mesmo com tanta desvalorização acadêmica, ainda é das mais acessadas: basta botar o título de qualquer obra (desde que lá esteja) e aparece entre as primeiras do Google (“A Terceira Margem do Rio”, em pleno 2018, não existia, somente dois verbetes sobre as suas duas adaptações cinematográficas – sem desmerecer o cinema, arte que sempre amei, mas vejam que vergonha que é esta enciclopédia e mesmo os seus editores brasileiros, vejam como é tratada nossa própria literatura!). Muito bem. Quero apenas destacar que há, como se sabe, dentro da sua fortuna crítica e trajetória desde 1962, quando publicada no Primeiras Estórias, uma constelação de interpretações possíveis e impossíveis do conto, ou, como Rosa preferia, da estória (míticas, bíblicas, psicanalíticas, teológicas, sociológicas, modernistas, poéticas, etc.) e talvez, averiguando pela minha ampla pesquisa, não há ainda uma leitura deleuziana, que penso em fazer, em paper ou mesmo em ensaio despretensioso no meu blog: há em todas as estórias e contos do Rosa, mesmo no Grande Sertão, grande parte do que se debruçou a filosofia deleuziana (pena do francês não o ter lido, pois gozaria, teria orgasmos múltiplos): desterritorialização por todo o sertão (na mesma dimensão ou em proporções até maiores do que aquelas que Deleuze notou especialmente nos grandes escritores americanos, Melville, Faulkner, Kerouac e seus afastamentos, viagens, cruzar o país), linhas de fuga (do cotidiano, do sistema, do pacto social) – desterritorialização e linha de fuga empreendidas pelo pai que larga tudo e vai para a canoa, e também do filho, que entra numa crise incomensurável, querendo desviar-se da sociedade, trocar de lugar com o pai, mas logo desviando-se também da própria canoa e do que ela representa – devires minoritários (o patriarcado, o homem do sertão, o macho sempre está lá nas obras do Rosa, dentro de um ambiente regionalista, à margem, pobre, sem justiça nenhuma a não ser a das próprias mãos, mas também envolto sempre num devir feminino e num devir mulher: Diadorim e mesmo no “A Terceira Margem do Rio”, onde há um questionamento do filho e também do pai do que é ser homem e Homem, masculino-hetero-macho e homem-existência, dentro do abandono dessas regras dominantes e na falha em ser um, seja ficando na sociedade ou tendo a coragem de entrar na canoa.) Os personagens do Rosa são sábios, são pensadores, mesmo os mais terríveis, como no conto “Fatalidade”, são grandes pensadores! Nesta simplicidade sertaneja, neste aprofundamento do regional, Rosa encontra o universal, há grandes sabedorias: o narrador do Grande Sertão é um sábio como nenhum outro personagem da literatura brasileira. Ah, e os perceptos do Rosa! Percepto, para quem não sabe, é a matéria de toda arte, assim como os conceitos são a matéria da filosofia e as funções a matéria da ciência, segundo Deleuze e Guattari: percepto = conjunto de percepções e sensações que vai além de quem as sentiu… São atmosferas, geografias, cartografias específicas (interiorzão, sertão) e, ao mesmo tempo, lugares-nenhuns, fímbrias, margens cósmicas, inútil pesquisar em mapas… Sem contar os escritos de Deleuze sobre o fato de que ser escritor ou estilista é criar uma nova língua dentro da língua-mãe ao invés de conservar a sintaxe, coisa que Rosa (numa arquitetura literária erudita e popular ao mesmo tempo, oral e formal, também com neologismos próprios, conforme Paulo Rónai, Roberto Schwarz e centenas de outros críticos e estudiosos já registraram) fez como pouquíssimos escritores brasileiros. O próprio devir animal está em várias páginas (virar um bicho, um selvagem, ou uma das personagens do Primeiras Estórias, que é uma vaca) – como a Baleia do Graciliano, que teve uma espécie de devir humano em seu momento derradeiro, enquanto o resto se animalizava.

Enfim, isto dá pano pra manga. Se eu continuar, não durmo. Quem sabe desenvolvo e aprofundo outro dia, com mais método e com o mesmo entusiasmo…

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