Vejam como a história se repete sempre…

Vejam como a história se repete sempre. Tudo avatar, reflexo, somos todos avatares… Por isso mesmo vocês já podem descansar a respeito dos eventos atuais no Brasil e no mundo: pra que tanta preocupação, se tudo é reflexo do que já aconteceu e reflexo do que irá acontecer de novo e sempre?… Jorge Luis Borges repetiu isso muitas vezes em seus contos: o assassinato de Júlio César, por exemplo, fruto de uma traição, de uma conspiração, de uma surpresa inesperada, acontece quiçá todos os dias, de forma famosa ou anônima pelos becos, favelas, altos poderes do mundo: os assassinados, os bandidos, mães, pais, namorados, casais, amigos, eu e você sempre repetimos alguma vez na vida a patética frase que Shakespeare e outros retrataram: “Até tu?!”… Mesma coisa com a perseguição a revolucionários e a políticos como Lula. (Não que ele seja estritamente revolucionário, parece sectário de classes no discurso, mas sempre foi um conciliador na prática…) Tem gente que acha que é coisa nova. Primeiro, basta pesquisar e estudar o julgamento que houve contra o mártir Tiradentes da Inconfidência Mineira… Ler os autos, as acusações, etc. Longe de mim comparar os dois, até porque Lula não foi enforcado, está comendo relativamente bem, tem banho quente, cama, TV (é que as punições também vão progredindo com os tempos), mas, como para o universo ou para a divindade as individualidades são difusas, tudo é uma coisa só, até a crucificação de Cristo e Sócrates bebendo a cicuta… Depois… Ora, sou leitor quase assíduo das crônicas velhas do Machado — velhas, porque se tratam de finais do século 19… Vejam alguns dos comentários de um dos maiores escritores brasileiros — para alguns, o maior — sobre Antônio Conselheiro, o líder de Canudos, na sua coluna da Gazeta de Notícias, “A Semana”:

“[…] Outra prova é o eco de Nova Iorque e de Londres onde o nome de Antônio Conselheiro fez baixar os nossos fundos. […]”

Ou seja, já em 1897 o capital externo e o interesse de fora baixavam ou aumentavam de acordo com os eventos do país. Bolsa de Valores, Dow Jones, hoje, e essas coisas tão antipoéticas… Sim, o germe da nossa sociedade atual se concentra ali, final do século 19, passagem da monarquia para república, revolução industrial, inícios do capitalismo, etc. E continua:

“[…] O efeito é triste, mas vê se tu, leitor sem fanatismo, vê se és capaz de fazer baixar o menor dos nossos títulos. Habitante da cidade, podes ser conhecido de toda a Rua do Ouvidor e seus arrabaldes, cansar os chapéus, as mãos, as bocas dos outros em saudações e elogios; com tudo isso, com o teu nome nas folhas ou nas esquinas de uma rua, não chegarás ao poder daquele homenzinho, que passeia pelo sertão uma vila, uma pequena cidade, a que só falta uma folha, um teatro, um clube, uma polícia e sete ou oito roletas, para entrar nos almanaques. […]”

Noutra crônica:

“[…] Este chefe de bando há muito tempo que anda pelo sertão da Baía es­palhando uma boa nova, sua, e arrebanhan­do gente que a aceita e o segue. Eram vin­te, foram cinqüenta, cem, quinhentos, mil, dois mil; as últimas notícias dão já três mil. Antes de tudo, tiremos o chapéu. Um homem que, só com uma palavra de fé, e a quietação das autoridades, congrega em tor­no de si três mil homens armados, é alguém. Certamente, não é digno de imitação; che­go a achá-lo detestável; mas que é alguém, não há dúvida. Não me repliquem com al­garismos eleitorais; nas eleições pode-se muito bem reunir duas e três mil pessoas, mas são pessoas que votam e se retiram, e não se reúnem todas no mesmo lugar, mas em seções. Casos há em que nem vão às urnas; é o que elegantemente se chama bico de pena. Uns dizem que este pro­cesso é imoral; outros que imoral é ficar de fora. Eu digo, como Bossuet: “Só Deus é grande, meus irmãos! […]”

Noutra:

“Telegrama da Bahia refere que o Conselheiro está em Canudos com 2.000 homens (dois mil homens) perfeitamente armados. Que Conselheiro? O Conselheiro. Não lhe ponhas nome algum, que é sair da poesia e do mistério. É o Conselheiro, um homem dizem que fanático, levando consigo a toda a parte aqueles dois mil legionários. Pelas últimas notícias tinha já mandado um contingente a Alagoinhas. Temem-se no Pombal e outros lugares os seus assaltos.

“Jornais recentes afirmam também que os célebres clavinoteiros de Belmonte têm fugido, em turmas, para o sul, atravessando a comarca de Porto-Seguro. Essa outra horda, para empregar o termo do profano vulgo que odeio, não obedece ao mesmo chefe. Tem outro ou mais de um, entre eles o que responde ao nome de Cara de Graxa. Jornais e telegramas dizem dos clavinoteiros e dos sequazes do Conselheiro que são criminosos; nem outra palavra pode sair de cérebros alinhados, registrados, qualificados, cérebros eleitores e contribuintes. Para nós, artistas, é a renascença, é um raio de sol que, através da chuva miúda e aborrecida, vem dourar-nos a janela e a alma. É a poesia que nos levanta do meio da prosa chilra e dura deste fim de século. […]”

Antônio Conselheiro foi também o Marighella e será o próximo grande revolucionário.

Tudo avatar, meus senhores… Se será morto igualmente como estes dois e tantos outros, o azar é dele, porque eu avisei!… Que, no mínimo, os estude, e estude também os seus detratores e carrascos, pois os atuais e os futuros são avatares daqueles, que estude tudo isto muito bem, para se safar melhor e quem sabe ganhar.

Tudo avatar, até eu escrevendo como Machado…

O que isso tudo quer dizer? Eu sei lá…

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