Morte de David Bowie me atingiu fundo

morte do Bowie me atingiu fundo. anteontem eu estava ouvindo ‘tis a pity she was a whore sem parar, uma das canções do seu novo disco, e de repente ele se vai. achei a canção inovadora, só ele faria aquilo, no alto de seu status, sem medo

todos esses dias estive trancafiado em casa, curando febre e dor horrível, e o fato de não ter ocupações imediatas me fez ficar pensando, refletindo… entrei em estado depressivo ou melancólico. geralmente choramos a morte dos nossos próprios mortos, então como explicar que essa me atingiu fundo? deve ser, sem dúvida, o misterioso laço de identificação que só a arte revela

você sai na rua, nessa São Paulo nublada, melancólica, desértica – recorda Jorge Luis Borges: o homem é um morto que conversa com mortos – recorda Fernando Pessoa: o homem é um cadáver adiado – a morte do outro é a sua também

depois, assistir aquele último videoclipe dele dói demais, é desesperador, profético – amigos próximos dizem que ele queria viver, queria continuar com sua filhinha de 15 anos e sua esposa, a supermodel Iman

totalmente inesperado, logo após seu aniversário e lançamento de um novo disco, embora eu tenha reparado quão magro e debilitado ele parecia – a saída de cena, portanto, foi também genial: sua própria morte em suas mãos virou arte

de qualquer forma, a última faixa do último disco (“I cant give everything away“) é canção angelical, suave, melódica, sobre legado, mensagem – de fato ele sabia que não tinha escapatória

quando virei fã, anos atrás, ele já havia parado de dar shows desde 2004 – como costumo fazer, embarquei fundo em tudo que ele lançou, até enjoar. para nossa surpresa, retornou em 2013, longe dos holofotes, num mundo de tantas “celebridades”

múltiplo, polimorfo, como todo ser humano deveria ser, sem medo de ousar num território de tantos clichês, um cara com uma trajetória de vida doida, admirável pelos obstáculos ultrapassados e pelas recriações constantes. ele viveu umas 10 vidas em 1 (há um Bowie dos anos 60, outro do começo dos anos 70, outro do fim dos anos 70, outro dos anos 80, outro dos anos 90, outro dos anos 2000, e outro que reapareceu em 2013)

na obra, sempre um clima caótico, intenso, crítico, e não raro o tema do outsider – por isso mesmo os fãs de Bowie são criaturas estranhas, desajustas do meio social

na vida (ao menos em todas as entrevistas que assisti), sempre um sorriso branco, largo, um humor acolhedor

era, também, o único que sistematicamente tentava fazer o que pode se chamar de arte – todos os outros, mick jagger, paul mccartney, rod stewart, etc. estão próximos do entretenimento, e mesmo bob dylan já não é mais o mesmo

isso porque Bowie se preocupava com questões que não se espera que a música pop se preocupe, mas que estão constantemente na esfera do cinema, da literatura, da pintura

grande lacuna – ídolo você sempre considera como alguém da sua família, talvez como um tio distante. escrevi certas coisas influenciado por suas letras e se tem algo que ele nos ensina, dada sua trajetória artística de altos e baixos, é o quanto um artista precisa manter-se fiel a si mesmo ao invés de sempre pensar em agradar um público (afinal, faça o que você fizer, ele sempre vai surgir)

sem david bowie toda uma era acaba – morte simbólica da morte de todo um modo existencial de música pop – aliás, se tem algo de positivo nisso tudo, é que por conta de sua morte fiz as pazes com algumas pessoas com quem briguei um tempo atrás – só para podermos chorar um pouquinho juntos…

Comments

  • ‘A morte de qualquer homem diminui a mim,porque na humanidade me encontro envolvido;por isso,nunca mandes perguntar por quem os sinos dobram;eles dobram por ti’:John Donne.

    Ademar Amancio 14 de outubro de 2016

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