Eu sou um embrulho em desenvolvimento e expansão

COMO NÃO ME CONFESSO PRA PADRE E COMO NÃO TENHO TERAPEUTA, DEIXO NO MEU BLOG:

Sinceramente? Sinto-me como Jesus ou Buda que deixaram suas famílias, suas zonas de conforto, e partiram voluntariamente para um destino que não seria mais fácil. No entanto, não passo de um Hamlet (no final explicarei o motivo.) Confesso que sempre fui mimadinho de mamãe e sempre olhei para meu próprio umbigo; vir morar sozinho em 2013 na maior cidade do país mexeu com minha cabeça, porque entrei em contato com as mais diversas realidades diferentes da minha. Quando conheço (só esse ano) um americano, um francês, um chileno que vieram para São Paulo estudar e trabalhar, todos da minha idade, começo a pensar que o país não está tão ruim quanto os urubus pregam, e quando contatos meus da Europa dizem que a situação por lá está ruim, que cresce a intolerância e os atos criminosos que fazem as pessoas terem medo, muito medo, que os políticos e os próprios europeus dizem que gente da Síria, Nigéria, Congo, Marrocos, Tunísia, etc está roubando seus empregos e dinheiros (o discurso que levou ao Nazismo), quando vemos que o ódio e a intolerância também possuem suporte e apoiadores nos Estados Unidos (vide Donald Trump), só consigo pensar que este país não está o caos exagerado que eles querem que a gente pense (a questão de imigração nos EUA e na Europa é mais profunda que aqui, é capaz de derrubar ou eleger um governo), e só consigo pensar em Stefan Zweig e seu “Brasil, um país do futuro”, ou seja, a utopia de uma nação global, miscigenada, ponto de convergência onde um novo homem do século conviveria com todos num perfeito modelo de união e tolerância, MAS, MAS, MAS tudo isso cai por terra quando vou ao simpático cabeleireiro e ele diz que esse país precisa de uma ditadura, quando pego um simpático chofer de táxi e ele diz que esse país precisa de uma ditadura, quando temos o Congresso mais conservador desde 64 (cheio de ruralistas e fundamentalistas religiosos) e, principalmente, quando dou uma voltinha no centro de São Paulo (que não costumo frequentar), onde encontro uma realidade outra que não vejo aqui na Pompéia, onde moro: gente na rua, menores pedindo esmolas dentro do metrô (com discurso decorado, essas pessoas são zumbis, eles não tem identidade, eles perderam ou nunca tiveram autonomia, eles não sabem nem mesmo erguer a voz para pedir com convicção e nós sempre pensamos que o dinheiro é pra droga), ou seja, essas questões bem nossas, humilhantes, inconvenientes, persistentes, que a gente evita olhar, debater e que parecem nunca se resolver… Tudo isso não gera em mim revolta nem tristeza, como em outras pessoas (porque sei que não existe modelo de vida ideal e que o ser humano, em qualquer posição hierárquica, terá de enfrentar suas próprias dores e delícias), mas provoca, isto sim, um profundo repensar sobre mim mesmo, o meu estar no mundo. Eu sempre tive essa tendência de Hamlet à reflexão, que, como eu, também sofreu com a perda do pai e, como eu, também não se sentia preparado para ocupar seu trono tampouco, como eu, para lidar com os elementos práticos da vida. Com a morte do pai, Hamlet amadurece e se dá conta de que o mundo não é fantasia. O cineasta soviético Andrei Tarkovski dizia que Hamlet não morreu no final, mas antes, quando, justamente ele, um moralista, acabou se corrompendo. Do romântico para o maquiavélico (me pergunto, sem resposta, se Shakespeare compôs isso tudo consciente ou inconscientemente, visto que Maquiavel era da época, mas o Romantismo, que amou Hamlet, veio muito depois). Todos sabemos o final (trágico) do príncipe, que acabou se igualando à gente corrupta e assassina da Dinamarca que ele tanto condenava no início. Meu futuro há de ser outro.

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