A Dor de Escrever

Fala-se (e escreve-se) muito sobre o tesão da escrita. Existe, é verdade, principalmente tesão estético do texto pronto e o sabor das palavras e construções, mas, ao mesmo tempo, pouco se fala e pouco se escreve o quão dolorosa ela também é. Eis o objetivo desse lamuriante e defeituoso texto, escrito às pressas enquanto sinto dores físicas de tanto escrever durante horas, como um instrumentista dedicado.

O processo da escrita envolve muitas neuroses, loucuras e manias pessoais, depurações e autoterapias, posturas físicas. Introversão. Compor livros, poesia, ficção, ensaios, é desvario muito doloroso. Kafka caía da cama e muitas vezes ia para o escritório sem dormir, Rosa lutava com o demo, nu no chão. São noites sem dormir, ignorar de obrigações, amores e oportunidades externas – toda atenção e energia no trabalho que não envolve ninguém senão você mesmo.

Mergulho. Se não for assim, há medo ou mesmo constatação de que, ao retornar para o que já se escreveu, depois de intervalo despendido na vida real ou em besteiras e procrastinações, perca-se totalmente a vontade ou o pique de continuar a costura. Sem o fio de Ariadne, mesmo que Teseu acabe com o minotauro, ficará para sempre perdido no labirinto. Nem todo mundo suspeita a dor que é perder um texto – nem a alegria de recuperá-lo.

A costura dum texto – um dos pontos mais dolorosos do processo, que é o de recuperar e ligar os pontos – é, além do prazer simultâneo, às vezes, quase impossível e, não raro, pode virar cicatriz na gente mesmo.

Seja como for, o “embalo” pode fazer com que você perca totalmente a noção das horas e até do ridículo, como nas melhores paixões…

Aquilo que não existia, mas que eu, feito demiurgo, impus à realidade, despejei num papel em branco, urdi dos meus delírios, sonhos, observações, sensibilidades, técnicas, vivências, experiências, leituras, influências e inspirações, passa a ser meu vício, passa a ser necessário. Como pode?!

Memórias, memórias, memórias, muitas delas dolorosas, sentimentos revisitados e novos, sendo criados: tudo isso por meio da escrita, que, sem preconceitos, com nossa permissão ou arrombando a porta, remonta pessoal e impessoal, remonta até mesmo os séculos, prevê futuros.

E o próprio ato de escrever por impulso, mediunicamente, mas também aos prantos, com todo meu ódio, com toda minha frustração, com toda minha vida: encontro vastos sentimentos, prazeres e redenção. Mas aqui cabe um alerta: Pessoa, ou melhor, Álvaro de Campos, num dos seus poemas, diz que se deve esperar o depois, o depois, e não simplesmente o que ocorre na cabeça do tempo. Drummond, sobre a procura da poesia e o penetrar surdamente no reino das palavras, não deu conselho semelhante?…

Jamais tratar como hobby. Escritura é dor-prazer a ser levada a sério. Vai ver é sadomasoquismo…

Às vezes – e essa é provavelmente a minha dor maior na escrita -, madrugada a dentro, acho tudo o que escrevi genial, mas o sol vai entrando lentamente, amanhecendo, amanhecendo, alguém acorda, “sóbrio”, a cidade vai acordando, o mundo, as luzes, as pessoas, o nefasto cotidiano e as rotinas alheias, as vozes e movimentações, a “mediocridade”, os afazeres, e o texto perde totalmente o sentido, “enfraquece”, como se pertencesse somente à madrugada. Loucuras…

E, muitas vezes, simplesmente “não funciona” – nada sai no papel, brancura intimidadora, ou o que sai é uma merda, e você se acha uma enorme farsa. Desvario laborioso!…

Cada vez mais, à medida que vivo e escrevo, não consigo lidar com a vida e com a obra ao mesmo tempo, ambas exigem muito de mim e eu sou um só. Sem querer, acabo abdicando de uma das duas e a culpa que cai sobre mim é muito grande –
ou porque estou perdendo tempo de construir minha obra ou porque estou perdendo tempo de construir minha vida… Pressões e cobranças tanto de uma quanto da outra. É claro que, ideologicamente, também não vejo separações entre uma e outra, mas no plano concreto, do dia a dia, a diferença se intensifica.

Jung entendeu que o poeta atua no inconsciente coletivo, é todos os homens, além do homem singular que o sustenta. Dicotomia. Duelo. Não à toa o tema do duplo seja tão fascinante na literatura…

Se, conforme suspeito, eu realmente for um megalomaníaco, a Literatura e as artes das quais me interesso não passam de extensões da minha megalomania. Invento projetos mirabolantes nas artes e também na escrita, secreto, embora não ache que minha vida fora disso tenha sido pouco interessante, ao contrário – o problema é que ela perderia todo o sentido, sem isso. Ou então eu finalmente me libertaria. Sem meio termo.

Também existe a problemática da solidão. Só escrevemos pra valer quando nos isolamos, mas, dependendo da época de nossa vida e do nosso estado psicológico e espiritual, tal solidão pode ser uma faca – embora, muitas vezes, o fruto da escrita seja ainda mais potente por causa disso… Forças contrárias que cooperam.

Nem todos possuem uma fila (ou lista) de projetos literários – aqueles que, como eu, possuem, sofrem mil vezes mais, porque pensam, confundem e misturam títulos, anotações, planejamentos. São muitas ideias para um só corpo e para uma só vida se dividir, e saber lidar com a defasagem, com a vontade de simultaneamente engatar tudo de uma vez: larger than life…

Mesmo sem fila ou lista, um único trabalho, dependendo do nível de repertório do escritor, pode assumir tantas formas possíveis, pode ser tantas coisas de tantos jeitos, que a simples obrigação de escolher um caminho único pode paralisá-lo por completo. Nesse momento, basta recorrer a Nietzsche: se você fizer uma escolha precisa, ainda que seletiva, todas as outras abandonadas estarão contidas naquela, amalgamadas, de uma forma ou de outra.

(Citei, acima, um bloqueio raríssimo, que só escritores de alto nível possuem. Não preciso citar a dor do bloqueio criativo, preciso?… Esse morde todos e qualquer um…)

Depois do trabalho de revisão e releituras (que, dependendo do que se escreveu, pode durar um bom tempo), muitas vezes se sente enorme vergonha do resultado, como se você estivesse nu em praça pública, e logo terrível medo de escrever.

Além do mais, depois de terminar um trabalho, isto é, de se livrar dele, porque nunca se termina nada (ilusão que criamos para nos enganar), você pode se sentir completamente vazio, oco, sem sentido, como se a escrita fosse seu único barco-abrigo sobre o mar da morte.

A posição física, ah, também pesa muito no processo, a dor dos ossos e da carne – é sempre desconfortável, seja sentado (onde me canso rapidamente) ou deitado (frequente e prejudicial, nada saudável). Sempre quis escrever somente em pé, como muitos escritores, mas até agora ocorreram poucas vezes.

Além de tudo, não há (muito ou nenhum) prazer erótico ou sensorial na escrita, como deve haver, por exemplo, com a pintura: quase sempre é mecânico e cerebral, ainda que feito com o coração. Certas coisas (não só inspirações inesperadas ou anotações) merecem apenas lápis/caneta e papel, que, no entanto, não acompanham o fluxo voraz do pensamento de um escritor ou poeta, e que também são dolorosos como computadores e máquinas de escrever.

Minhas mãos doem… Os dedos sofrem… As costas…

Enfim, são muitos os problemas que envolvem a escrita. Agora, vamos ao descanso!

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