O que é escrever, o que é ser escritor, o que é ser poeta?

Hoje em dia, é bem possível que as pessoas andem escrevendo muito mais do que noutros tempos, por causa da projeção “social” das redes sociais, onde se expressam e opinam sobre tudo. Mesmo na área da ficção e da poesia, há muitos escrivinhadores. Mas raros escritores. Escrever, ser escritor não é simplesmente rabiscar papéis: isto qualquer pessoa mais ou menos alfabetizada consegue. Basta sentir uma inspiração ou uma emoção. Ser escritor e poeta vai além. Ser poeta é inventar uma linguagem nova. Escrever e ser escritor é influir na língua-mãe, automaticamente esculpindo um estilo seu. É preciso atingir um certo estado de amor e de ódio pela língua materna, a ponto de influir na sua sintaxe. Nenhum grande escritor é conservador da sintaxe.

Peguemos qualquer texto de Guimarães Rosa, por exemplo. Por que ele é um grande escritor? Simplesmente porque disseram? Não. O que há em seus textos? Nos contos e mesmo no Grande Sertão. Além dos temas, ou melhor, carregando os grandes temas universais e existenciais, o que há? Dois ou três movimentos gerais determinantes, que Paulo Rónai¹ e Roberto Schwarz² estudaram muito bem nos anos 60: de um lado, a representação de uma fala “popular”, “regionalista”, coloquial e, do outro, neologismos do próprio Rosa, mas ambos os movimentos dentro de uma estrutura de estranho formalismo. É fascinante a prosa pedregosa roseana, porque une os dois níveis (coloquial e erudito) de fala e escrita (aparentemente tão antagônicos) de maneira completamente original. Pegue qualquer um de seus contos e verás isto. Compare o início do Grande Sertão: “– Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja.”, mas, logo no parágrafo seguinte, no segundo parágrafo do livro: “Não gloso.” Choque de signos… Não é fácil ler um texto do Rosa, tanto para leitores urbanos quanto rurais, o que atesta a arquitetura própria que ele urdiu, uma língua que inventou dentro da língua portuguesa e brasileira. Em certos momentos, pode parecer que esta estrutura e confecção sufoca a fabulação, a história, mas Rosa ainda conseguiu ser um grande escritor de prosa poética, cheio de tiradas geniais e vislumbres de sabedoria. Propositalmente, queria uma prosa pedregosa, cheia de trancos na leitura: coisa raríssima na literatura brasileira, tendente sempre ao mais volátil.

Outro pedregoso, igualmente proposital: João Cabral de Melo Neto, outro grande estilista, provavelmente o maior poeta brasileiro: há um estilo tipicamente joãocabralesco, um ritmo próprio, uma sonoridade, uma música que é só dele em todos os poemas. Será que conseguem perceber o grande feito dele? Mais difícil do que criar uma nova concreção da linguagem ou firula poética e persistir nela (sobretudo depois da iconoclastia de tantos modernismos, pós-modernismos, concretismos e experimentalismos), é conseguir, ainda dentro de uma forma em verso e rima, ser original como João Cabral foi. Criou uma conduta literária própria. Que poeta! Quero destacar uma frase de Haroldo de Campos (seus estudos e monografias sempre me entusiasmaram mais do que sua poesia) sobre João Cabral para insistir no que é ser poeta: “…uma atitude de vigilância e lucidez no que FAZER, contrária ao DEIXAR-SE FAZER do espontâneo e ao SABER FAZER do acadêmico”.³

Este DEIXAR-SE FAZER do espontâneo remete ao início deste meu texto. A maior parte dos escritores e poetas são espontanistas. Não, não se trata do recurso de fluxo de consciência. São simplesmente espontâneos, seus entusiasmos temáticos correm na frente da confecção de uma escritura. Ao mesmo tempo, o SABER FAZER do alfabetizado ou do acadêmico tampouco gabarita um grande escritor.

Dei dois exemplos quase cátedros, Guimarães Rosa e João Cabral, que assustam pela envergadura, mas minha argumentação se encontra em diversos outros casos igualmente agudos, em efeitos e graus diferentes: Clarice Lispector, Graciliano Ramos, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Machado de Assis. O que há em todos esses? São conservadores da sintaxe? Não creio. Já se escreveu muitíssimo da sintaxe caótica de Clarice, dando vazão à livre associação de ideias; já tanto se escreveu do estilo seco de Graciliano, condizente com seus temas de sertão, miséria, angústia; já se escreveu da nova língua brasileira intentada por Mário; da língua inovadora e modernista de Oswald; da língua citadina de Machado.

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