Pedro II se encontrou com Nietzsche? NÃO!

PEDRO II SE ENCONTROU COM NIETZSCHE? NÃO!

Tem muita mentira e idiotice nesta rede. Por isso evito acompanhar e me deter. Esses dias alguém compartilhou que Pedro II teve 5 horas de conversa com Nietzsche na Alemanha. É risível, mas não consegui rir. E que se corresponderam até a morte: sobre as cartas, ninguém sabe, ninguém viu… É muita enganação, alienação, burrice – as pessoas não vão checar, não questionam. Comentei na publicação, os administradores da página do Pedro II excluíram meu comentário e me bloquearam – só por isto já se vê que não são comprometidos com os fatos e que são partidários. Esta historinha fajuta só pode ter sido inventada pelos viúvos da monarquia, gente que quer colocar no poder aquela família infecunda e inútil que vive lá no Rio de Janeiro, ou melhor, numa bolha que já estourou faz tempo no século 19… Isto se não são eles próprios a disseminar inverdades… Como filósofo, professor de filosofia, estudioso e leitor assíduo de Nietzsche – e nietzschiano em muitas questões -, sinto-me obrigado a desfazer esta farsa. Primeiro – e basta se informar em fontes fidedignas -, Nietzsche passou a maior parte da vida adulta fora da Alemanha, principalmente na Itália (Veneza, Roma, Sorrento, Turim) e um pouco na Suíça (ele foi professor na Basileia até se aposentar por problemas de saúde e empreender um itinerário errante e nômade fora da Alemanha), retornando somente quando teve seu colapso mental agravado em Turim, passando a ser cuidado pela irmã. Estará em qualquer de suas biografias: para falar de uma nova filosofia que flerta o tempo todo com a imanência, com o corpo e com a sensualidade, preferiu lugares quentes, marítimos, solares. Agora, vale lembrar que, para mim, Pedro II – como escrevi tantas vezes – representa o que há de mais atrasado, oligárquico, indolente, escravista e elitista na história brasileira: ele é o epítome da direita conservadora brasileira – a falência proposital do Barão de Mauá, homem branco com projeto industrialista a nível nacional, que acabaria de vez com a escravidão (vide o exemplo da Guerra Civil americana) e com a monarquia é apenas uma das tantas provas disso. E assim este país foi o último das Américas a abolir aquela crueldade sem tamanho, uma abolição desleixada, aliás, conforme historiadores contemporâneos atestam – e o imperador desnecessário e careta (sim, pois basta ver que as suas cartas – até mesmo para as mulheres – eram meros relatórios técnicos) prolongou até quando pôde a sua estadia. Nos últimos anos tem se investido, inclusive em certos ambientes acadêmicos, em mentiras a seu respeito para glorificar ou justificar o que não tem qualquer glória ou justificativa, desde dizer que ele era fotógrafo “precursor” até que foi amigo de Nietzsche e outras abobrinhas pseudointelectuais… Anos atrás, coloquei no meu canal do YouTube trecho da entrevista com o poeta Décio Pignatari no Provocações do Antônio Abujamra onde ele justamente diz essas e outras coisas: https://youtu.be/2s8Qfl7eB2M Enfim, prefiro mil vezes seu pai Pedro I: malgrado todos os defeitos – muitos deles documentados por seu braço direito, e meu conterrâneo José Bonifácio -, tinha dotes culturais e artísticos, parecia ser um tipo bem latino (impossível não o ser tendo como mãe a Carlota Joaquina), mas sobretudo por que é figura libertária, tendo proclamado a independência do Brasil e implantado o liberalismo em Portugal, contra o despotismo.

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