Machado de Assis comenta o socialismo, em finais do século 19

Acho que já citei outro assunto sobre isso por aqui (vale a pena procurar): de tempos em tempos, acabo caindo numa página fantástica (http://www.machadodeassis.ufsc.br/obras/cronicas/CRONICA,%20A%20semana,%201892.htm) com todas as crônicas — este gênero tão genuinamente brasileiro! — que Machado de Assis escreveu originalmente para a Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro numa coluna intitulada A Semana, onde comentava, com tédio, com ironia, com literatura, todo domingo os fatos mundiais e nacionais da semana; naquele tempo, em grande parte trazidos por telegrama e pelo telégrafo! Houveram outras crônicas de sua lavra, em outros periódicos e jornais (A Época, A Estação, Correio da Manhã, Correio Mercantil, O Cruzeiro…), e até mesmo por detrás de pseudônimos (o mais famoso e amplamente aceito pelos estudiosos como autêntico dele mesmo é o de Lélio), mas estas crônicas da Gazeta revelam textualmente todo o panorama dos inícios da modernização brasileira, na passagem do século 19 pro 20, da monarquia/império para a república, e Machado foi testemunha ocular disso tudo. Em tempos em tempos, quando entro na longa página supracitada, pesquiso na área do navegador algum termo que me vem na cabeça, a título de curiosidade, para saber o que o maior escritor brasileiro da época — e um dos maiores, senão o maior de todas elas — comentou a respeito. Aqui vai minha seleta pesquisa sobre os termos “socialismo” e “socialista” (constam 11 vezes ao total, nas crônicas de 1892 a 1900):

Em crônica de 15 de maio de 1892: “[…] Tudo é ovo. Quando o Sr. deputado Vinhais, no intuito de canalizar a torrente socialista, criou e disciplinou o partido operário, estava longe de esperar que os patrões e negociantes iriam ter com ele um dia, nas suas dificuldades, como aconteceu agora na questão dos carrinhos de mão. Assim, o partido operário pode ser o ovo de um bom partido conservador. Amanhã irão procurá-lo os diretores de bancos e companhias, quando menos para protestar contra a proposta de um acionista de certa sociedade anônima, cujo título me escapa. Sei que o acionista chama-se Maia. O Sr. Maia propôs, e a assembléia aprovou, que ao conselho diretor fosse vedado subscrever ou comprar ações de outras companhias, de qualquer natureza. Realmente, não se pode fazer pior serviço aos outros e a si mesmo. Viva aquele padre que, pregando um sermão de quaresma, dizia que as velas com que se alumiava o Altíssimo eram de cera e sebo, e que as almas pias deviam comprá-las na casa de um seu irmão, que era o único que as fabricava de cera pura. O padre salvava explicitamente o irmão; mas o que é que salva o Sr. Maia? […]”

Em 05 de julho de 1892: “[…] Não trato sequer da reunião de proprietários e operários, que se realizou quinta-feira no salão do Centro do Partido Operário, a fim de protestar contra uma postura; fato importante pela definição que dá ao socialismo brasileiro. Com efeito, muita gente, que julga das coisas pelos nomes, andava aterrada com a entrada do socialismo na nossa sociedade, ao que eu respondia: 1°, que as idéias diferem dos chapéus, ou que os chapéus entram na cabeça mais facilmente que as idéias, — e, a rigor, é o contrário, é a cabeça que entra nos chapéus; 2°, que a necessidade das coisas é que traz as coisas, e não basta ser batizado para ser cristão. Às vezes nem basta ser provedor de Ordem Terceira. […]”

Em 15 de abril de 1894: “Tudo está na China. De quando em quando aparece notícia nas folhas públicas de que um invento, de que a gente supõe da véspera, existe na China desde muitos séculos. Esta Gazeta, para não ir mais longe, ainda anteontem noticiou que o socialismo era conhecido na China desde o século XI. Os propagandistas da doutrina diziam então que era preciso destruir “o velho edifício social.” Verdade seja que muito antes do século XI se formos à Palestina, acharemos nos profetas muita coisa que há quem diga que é socialismo puro. Por fim, quem tem razão é ainda o Eclesiastes: Nihil sub sole novum. […] Mas basta de chins e de incréus. Venhamos à nossa terra. Não nos aflijamos se o socialismo apareceu na China primeiro que no Brasil. Cá virá a seu tempo. Creio até que há já um esboço dele. Houve, pelo menos, um princípio de questão operária, e uma associação de operários, organizada para o fim de não mandar operários à câmara dos deputados, o contrário do que fazem os seus colegas ingleses e franceses. Questão de meio e de tempo. Cá chegará; os livros já aí estão há muito; resta só traduzi-los e espalhá-los. Mas basta principalmente de incréus; venhamos aos cristãos. […]”

Em 09 de junho de 1895: “[…] Sabemos telegraficamente o resultado total da eleição da câmara. Há uns tantos deputados governistas, uns tantos radicais, uns tantos socialistas, finalmente um pequeno número de indecisos. Leitor, imita o meu gesto, deixa cair o queixo. Certamente a indecisão é um estado ou uma qualidade do espírito, mas o que me abalou estes pobres nervos cansados, foi imaginar a intenção dos eleitores que os mandaram para a câmara. […]”

Em 10 de novembro de 1895: “[…] Lendo uma correspondência de Breslau, acerca do congresso socialista, dei com a notícia de fazer parte da assembléia, entre outras senhoras, uma de quarenta anos, que, aos vinte e cinco, em 1880, renunciou o título de duquesa para se fazer pastora de cabras. É nada menos que filha do duque de Wurtemberg e da princesa Matilde de Schamburg de Lippe. O governo wurtemberguês, para que ela não ficasse só com o nome de Paulina, deu-lhe o de Kirbach (von Kirbach). […] A minha observação consiste no contraste das duas moças, uma que nasce duquesa e bota fora o título, outra que nasce sem título e faz-se duquesa. Pastora de cabras, pastora de dólares. Que querias tu ser, carioca do meu coração? A poesia pede cabras, a realidade exige dólares; funde as duas espécies, multiplica os dólares pelas cabras, e não mandes embora o primeiro duque que te aparecer. Vai com ele à igreja da Glória, agora que deu à sua triste torre uma cor de rosa ainda mais triste, casa, embarca, vai a Breslau, não digo para fazer parte do congresso socialista; há muita outra coisa que ver em Breslau, duquesa. […]”

Em 05 de janeiro de 1896: “[…] Napoleão III tinha efetivamente a Europa pendente dos lábios no dia 1º de janeiro; mas esse, pela Constituição imperial, era o único responsável do governo, e, se prometia paz, todos cantavam a paz, sem deixar de espiar para os lados da França, creio eu. Um dia, declarou ele que os tratados de 1815 tinham deixado de existir, e tal foi o tumulto por aquele mundo todo, que ainda cá nos chegou o eco. Um socialista, Proudhon, respondeu-lhe perguntando, em folheto, se os tratados de 1815 podiam deixar de existir, sem tirar à Europa o direito público. Nesse dia, tive um vislumbre de política, porque entendi o rumor e as suas causas, sem negar, entretanto, que os anos trazem, com o seu horário, o seu roteiro. […]”

Em 26 de abril de 1896: “[…] Guerras africanas, rebeliões asiáticas, queda do gabinete francês, agitação política, a proposta da supressão do Senado, a caixa do Egito, o socialismo, a anarquia, a crise européia, que faz estremecer o solo, e só não explode porque a natureza, minha amiga, aborrece este verbo, mas há de estourar, com certeza, antes do fim do século, que me importa tudo isso? Que me importa que, na ilha de Creta, cristãos e muçulmanos se matem uns aos outros, segundo dizem telegramas de 25? E o acordo, que anteontem estava feito entre chilenos e argentinos, e já ontem deixou de estar feito, que tenho eu com esse sangue que correu e com o que há de correr? […]”

Por enquanto é só.

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