A importância da Filosofia no ensino médio e o combate às desformas

Cinco tópicos-declarações a respeito do tema, que escrevo justamente por estar me licenciando em Letras, por ser filósofo e por dar aulas de Filosofia, minha área de coração, em diversos lugares:

I

Filosofia no ensino médio FICA. Ótimo, menos mal, menos mal, mas “optativa” é uma forma de enfraquecer.

II

Tenhamos os olhos sempre abertos para decisões antidemocráticas de governantes e secretários sem diálogo ou vivência prática em magistério e nas disciplinas (no caso, na Filosofia), sujeitos incompetentes, portanto, que não pisam em escolas e decidem de cima para baixo, de costas para nós.

Somente professores, alunos e o resto do corpo docente e discente, isto é, somente quem está no dia a dia da coisa, sabe de fato quais tipos de reformas as escolas estão precisando; sabe o que é reforma e o que é desforma; tem o direito legítimo de também participar, decidir.

A obrigação de um representante político é intermediar esses desejos e necessidades entre MEC, conselhos, professores, etc. Deve ser condenada qualquer decisão arbitrária, absolutista, imperialista, na surdina e à distância.

Para isto é que, num país civilizado e democrático, existem assembléias. Aqui elas existem também, mas ou são ignoradas ou colocadas em posições de desvantagens entre poder e cidadãos, muitas vezes até mesmo com desvalorização social e econômica de professores e com o abuso da força policial militar contra professores e estudantes — qualquer pesquisa constatará que ambas ações são regras nos governos municipais e estaduais do PSDB…

III

Ao meu ver, atualmente nada deve ser retirado do Ensino Médio, ao contrário, vejo uma série de disciplinas a serem incluídas: como escrevi noutro texto deste mesmo blog, é importantíssimo haver uma aula sobre direitos focada na jurisprudência (interpretação e aplicação das leis) e sobre as estruturas da política e da República. Eu tive aulas de ensino plurirreligioso, não lembro se durante um ou em mais de um semestre. São três áreas defasadas no bojo da sociedade brasileira que, faltosas, repercutem em diversos descalabros nacionais, daí o papel da educação.

IV

Sobre a importância do ensino de Filosofia, eu sinceramente achava que não existiria mais o que ser discutido, mas comentários (absurdos) recentes em meu perfil do Facebook me fizeram rever a questão.

Escrever sobre a importância da Filosofia no ensino médio é o mesmo que escrever sobre a importância da Filosofia na adolescência. O que os professores fazem, inclusive seguindo um currículo escolar? Apresentam uma História da Filosofia, sobretudo a história ocidental — que não é um cânone abstrato ou formalmente inventado por alguém, ao contrário, está impregnado tanto no senso comum como na história do pensamento do homem, tanto no nosso caráter cultural fundante e progressivo quanto na metodologia intelectual de se fazer filosofia, ou seja, de ler, escrever e de debater filosoficamente, lidando com problemas, estudando e criando conceitos. Ao apresentar uma História da Filosofia, apresentam automaticamente sistemas de pensamento diversos, dialéticos, contrastantes e interconectados, entre os diversos filósofos e seus problemas e conceitos; trata-se de todo um arsenal plural, múltiplo, que amplia os repertórios dos jovens, enriquece a visão de mundo dos adolescentes e alarga os seus limites existenciais, estéticos, humanos e intelectuais.

É impossível renegar este papel na formação, a importância deste processo desde a adolescência.

Há quem, por experiências empíricas próprias, sem qualquer dado, estatística, estudo, pesquisa, massifique totalmente os conceitos em abstracionismos e generalizações descabidas, dizendo que o ensino de Filosofia no ensino médio inexiste, é fraco ou que este não seria o lugar da Filosofia. Uma pseudocrítica rasa, tumular, sem propostas, infecunda, que não tem nada de muito revolucionário e que permite decisões antidemocráticas e burras como a que quase foi implantada…

Todos os lugares são lugares potencialmente filosóficos.

E é justamente no espaço do ensino médio onde milhões de jovens em formação — grande parte pobres ou de classe média baixa, sem acesso a livros ou materiais de Filosofia por outros meios — têm seu primeiro contato com a Filosofia e têm um plano progressivo, contínuo com ela. Mesmo quem é abastado, faz toda diferença ser despertado filosoficamente desde cedo.

Além do fator da formação, este é outro aspecto básico da defesa desse ensino e de qualquer outro: o acesso e o intercâmbio dentro de um espaço escolar. Eu mesmo a tive assim, e ainda guardo comigo as apostilas e livros de Filosofia, assim como guardo os livros que não devolvi — tamanha minha paixão — de História, Literatura e Língua Portuguesa. Não fosse esse material básico, “gratuito” (ouriundo dos impostos!), não fossem também as aulas orais que tive, eu não teria galgado uma série de degraus intelectuais — e o incentivo, a motivação que guardarei sempre na memória de grandes professoras de Redação que contribuíram para minha carreira e vocação de escritor, como também das professoras de Filosofia, inspiradoras. São milhões de casos assim…

A questão, portanto, vai além dessa questão de classes, é uma questão pedagógica, educacional, filosófica BÁSICA! Desde a Grécia Antiga, tida como berço da Filosofia ocidental, haviam filósofos, professores, instrutores, educadores, pedagogos para as idades mais tenras! Eu achava que isso não precisava nem mais ser discutido! Francamente!

Injustificáveis tais pseudoargumentos, quando a questão colocada de fato é a crítica diante duma decisão incompetente do ponto de vista intelectual, educacional e político: Filosofia é sempre atravessante, mas tem autonomia, não é ciência, não tendo lógica ser diluída em Ciências Humanas e Sociais, terminologia, aliás, genérica, abstrata e infecunda, que compromete até mesmo a independência da Sociologia e das outras áreas humanas. Retirá-la: ação ainda mais descabida, típica dos períodos preconceituosos, ignorantes e déspotas.

Ainda sobre essa discussão do ensino filosófico, um garoto de 16 anos que acompanha meus vídeos no YouTube e no Facebook, que lê meus textos neste blog e em outros lugares, que tem acompanhado minhas aulas e o processo de alguns dos meus livros, que quer ser filósofo e que defende tal ensino na sua escola, recomendou o seguinte vídeo, com o pesquisador e professor de Filosofia Celso Favaretto, que, aliás, tem dado grandes contribuições para esta questão da importância do ensino de Filosofia na formação do sujeito: https://youtu.be/j_jOVTnYndw

Este vídeo me poupa de escrever vários outros valores básicos…

De qualquer forma, importa repetir que o mundo acadêmico já anda tão dinheirista, mercantilista, operacional, tecnocrata, antihumanista, que este seria mais um dos motivos pelos quais disciplinas como a Filosofia continuam pertinentes e corrosivas, numa investida da formação humana coletiva — justamente por isso são atacadas, retiradas, enfraquecidas, diluídas nos períodos históricos brasileiros mais ditatoriais.

Sobre o lugar e o espaço das escolas dentro da sociedade, neste blog também já comentei sobre a sociedade de soberania, sociedade disciplinar e sociedade de controle, conceitos e observações de Foucault e Deleuze que também nos interessam para esta discussão:

Como se sabe, as escolas, como as prisões, os espaços de empregos, etc. se encaixam dentro da sociedade disciplinar, que, como Foucault viu bem, passa a existir e ganhar força a partir de Napoleão. Antes dele, existia a sociedade de soberania e, agora, já no século 21 e cada vez mais ao longo dos anos vindouros, e desde os anos finais do século passado, surge uma nova sociedade: a de controle, que Deleuze conceituou pegando o termo de um livro do poeta americano beat e junkie William S. Burroughs.

De forma resumida, o que há de controle e captura e poder na sociedade disciplinar torna-se muito mais tênue, às vezes até mesmo mais imperceptível e inconsciente, na sociedade de controle, onde há maior flexibilidade nos espaços e instituições de ensino, prisão e emprego: as pessoas podem ser ensinadas de casa; os governantes e o poder policial e jurídico vão ter de rever outra forma de punir as pessoas; é possível trabalhar em casa…

Deleuze (como sempre) vê uma série de intrincados mecanismos sociais e filosóficos a partir disso, que não nos cabe agora; o que fica dessa observação e conceito é que as escolas são, sim, espaços de captura, poder e controle — eu que o diga, já não aguentava mais a rotina e a obrigação escolar diária! –, mas basta ficar nisto para não se vislumbrar inumeráveis casos de plêiades e benefícios que o estudo da Filosofia provoca nos jovens, muitos deles, inclusive, decididos a continuar o estudo filosófico em âmbito acadêmico ou por conta própria depois do ensino médio.

Enfim, repito que a questão aqui não é essa, de criticar as instituições no que elas têm de cerceamento, e tornar-se passivo ou permissivo. Isso é injustificável quando se pretende “argumentar” contra o ensino de Filosofia ou de qualquer outra área dentro de um espaço disciplinar como a escola, é desvio de foco da questão específica, até porque o próprio ensino filosófico é capaz de provocar senso crítico e criativo sobre todas essas questões. O que se questiona aqui é o ensino básico e preliminar de Filosofia e a sua necessidade.

O próprio Deleuze deu aulas para ensino médio — e, no documentário Abecedário de Deleuze, declara, já aposentado e com todas as letras, que a forma com que preparava e dava as aulas para o ensino médio não se diferenciava absolutamente de nenhum jeito com a forma com que preparava e dava aulas para o ensino superior… Isto, vindo de um espetacular professor e filósofo, não revela por si só a importância mútua entre ambos os espaços?!

V

O Ensino Médio é um fato — que deva ser reformado, melhorado, aprimorado, e até mesmo descentralizado e desconstruído, achar novas formas de espaço, são outros quinhentos, onde se cabe de forma legítima propostas, ideias e planos que sejam criativos, concretos e eficientes, mas não é retirando, diluindo ou enfraquecendo a Filosofia, ao contrário, o fortalecimento das disciplinas, a discussão de suas necessidades e de como serão ensinadas do ponto de vista prático, e a inclusão democrática de outras mais significa o fortalecimento do próprio ensino brasileiro e da própria sociedade como um todo.

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