Por que a Monarquia e a Ditadura foderam o Brasil

em tempos de gente pedindo volta da ditadura e da monarquia (outro dia, numa loja, tive que ouvir dois funcionários discutindo qual dos dois Dráculas deveria ser ressuscitado), do meu ponto de vista foi justamente durante esses dois períodos que o Brasil foi impedido de crescer como devia, e as escabrosas consequências são sentidas até hoje:

1. Monarquia: Não entendo como ainda fazem estudos elogiosos e positivos em torno da figura careta de Pedro II, um imperador reacionário que ganhava percentual por cada peça de escravo vendida!, velho retrógrado que, junto a outros escravistas, levou o Barão de Mauá a falência. sim, porque a industrialização proposta por Mauá acabaria com a Monarquia e com a escravidão: basta lembrar da guerra civil americana entre os industrialistas do norte e os escravistas do sul – a partir da vitória de Lincoln em diante, os Estados Unidos explodiram no mundo, enquanto o Brasil ficou azedando até 1889 (houve outras políticas nesse sentido, como a de Maria I de Portugal, que promulgou alvará em 1785 proibindo proliferação de indústrias no Brasil – um descalabro histórico!) nesse particular, deve-se admirar a audácia de um homem branco como Mauá, pois, naquela época, todos eles se recusavam a investir em projetos sociais grandiosos como esse, se recusavam a trabalhar a serviço de algum desenvolvimento nacional. infelizmente não deu certo, por interesses mesquinhos que minaram qualquer oportunidade. resultado: o país continuou paralisado durante anos e mais anos numa mentalidade tacanha, desumana, provinciana. outra lástima foi a famigerada Lei Áurea, que de nada adiantou na situação dos escravos e, segundo historiadores mais recentes, ajudou ainda mais a agravar a já precária condição dos negros no Brasil: não houve qualquer tipo de assistência humanitária, apenas liberdade superficial sem maiores questionamentos. espanta, portanto, que gênios e intelectuais como castro alves, machado de assis e outros também tenham adulado a Monarquia, apesar de todas suas escrituras contra a escravidão. eram calados por títulos notórios da Corte ou esse tipo de consciência crítica só se adquire depois de séculos de constatação?

2. O golpe de 64: As políticas de João Goulart apontavam para novas propostas sociais jamais antes empenhadas no país. ele pensava em reformas de base, reformas que vergonhosamente ainda não conquistamos e que tanto discutimos em vão. uma delas foi a reforma agrária, que o Congresso conservador da época derrubou. políticas, enfim, com objetivos claros de independência, justiça social e desenvolvimento, num país sempre esfaqueado por corporações, monarquias, ditaduras, “classes dominantes”. um projeto de governo completamente interrompido. mesmo se não o fosse, dificilmente essas políticas seriam implantadas devidamente, porque de nada interessaria para a chamada “classe dominante” do Brasil pensar em justiça social. de qualquer forma, ele planejou, levou em frente e, mais cedo ou mais tarde, os brasileiros teriam que se confrontar com elas de novo. acontece que veio o golpe de 64, “patrocinado” por um paranóico Estados Unidos pós-John Kennedy, instaurando ditaduras pela América Latina com medo do comunismo: em entrevista de 1967, achada em 2014, Jango diz simplesmente que “Justiça social não é algo marxista ou comunista.” o interrompimento de projeto democrático, no entanto, foi apenas um dos pontos danosos do regime, porque a ditadura militar no Brasil também corrompeu áreas da educação, saúde e cultura. houve empobrecimento cultural, truculência e violência institucionalizada e introjetada na população, e a consequência mais visível é na descida abismal das gerações que foram surgindo, criadas, na maior parte das vezes, dentro de uma consciência política alienante doutrinada pela mídia. basta lembrar da geração pré-golpe: com 5 anos de Juscelino Kubitschek, isto é, o país saindo da ditadura Vargas, ou seja, numa abertura política original, tivemos bienais inéditas, florescimento de uma literatura e uma arte plástica brasileira, poesia concreta, boom arquitetônico, experimentações do TBC, bossa nova, e tudo isso influenciou e se desenvolveu ainda mais durante os anos 60, com teatros de arena, cinema novo, cinemas marginais, festivais de música da Record, e até o início dos anos 70, quando depois ficou impossível fazer qualquer avanço estético ou artístico num país dominado militarmente, onde imperava o autoritarismo e a censura. os 21 anos do golpe acentuaram as misérias do país: os militares entregaram um Brasil marginalizado, medroso e mais alienado do que nunca.

considerações finais:

1. por mais irônico que possa parecer, o fim da Monarquia em 1889 também não trouxe mudança esperada e ideal. pelo contrário, com a queda da Monarquia surgiu um ditador. como, aliás, acontece em todos os cantos do mundo: basta lembrar Napoleão, Salazar, Franco, Stalin… (talvez somente um psicanalista junguiano possa explicar esses signos políticos em comum!) sem dúvida, porém, sem monarquia começamos a avançar um pouquinho mais.

2. também depois do regime militar, em 1985, houve uma redemocratização necessária, porém feita nas coxas, com interesses político-financeiros mesquinhos postos a frente de um verdadeiro projeto de novo Brasil, e práticas institucionais que deram margem à corrupção desenfreada. ainda hoje, apesar de ser a “pior forma de governo salvo todas as outras”, como bem disse Churchill, não me conformo – assim como José Saramago não se conformava – no quanto a democracia mundial é inquestionável, como ainda vivemos sob o julgo de cúpulas internas, FMIs, bancos mundiais, empresas que se relacionam indevidamente com partidos políticos, enquanto nos parece satisfazer o simples ato de colocar e tirar um governo do poder. isso é muito pouco para ser democracia.

Comments

  • Essa ótica da industrialização brasileira com a monarquia comparada com Lincoln nunca tinha lido sobre, gostei, irei pesquisar.
    Porém quanto aos negros se ferrarem com a lei áurea, quem ferrou os negros foi a república e não a monarquia, havia um plano de compensação de distribuição de terras (amenizaria até esse problema da reforma agrária), porém os aristocratas, o exercito, os maçons, os bispos d igreja católica…ninguém estava curtindo essas ideias progressistas de D. Pedro II.

    Rafael Nunes 21 de janeiro de 2017

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