POR QUE SOU REPUBLICANO (por favor, não confundir com o partido norte-americano!)

Ainda não inventaram melhor forma de governo do que a República, em tudo que ela tem de dinâmico, de alternância e de descentralização de poder, de possibilidades democráticas para todos, de desierarquização e participação popular. Cabe então a todos nós gerenciar esse dinamismo e melhorar o sistema político que impede essas características de aflorarem.

Escrevo isso justamente contra esses caretas que defendem a Monarquia, para não falar das ditaduras, sempre com discursos conservadores e dados ou estatísticas cretinas, montadas e suspeitas.

Sinto nojo, vertigem, clausura, em qualquer exposição que vou sobre a época do Império ou da monarquia. Sinto nojo, vertigem, clausura, sempre que vejo os infelizes “descendentes” “reais” que ainda estão vivos lá no Rio de Janeiro, como se ainda houvesse Corte, ostentando reino nenhum, fantasmas perdidos no tempo e no espaço, palhaços sem qualquer noção do ridículo. Vá a qualquer exposição da época. É muita hipocrisia. Mundo sem horizonte. Cafonice. Mortos-vivos indolentes. Falta de perspectivas. Rostos do tédio, da prepotência ou da incompetência, onde muitos dos nossos desprezíveis políticos atuais parecem se espelhar. Tão diferente do fervor do século 20, das emancipacões, reivindicações, do reboliço, tão diferente de 1922!…

Ora, a monarquia, no mundo todo, e não foi diferente no Brasil, representava velho mundo de pompa e circunstância, de elitismo absolutista e de poesia idealizada. Tanto é que Machado de Assis (1839-1908), em suas crônicas, lamentava o fim dela, ainda que tenha sido um dos retratistas mais ácidos de todas as mazelas e tragédias que sustentavam aquele sistema. Castro Alves (1847-1871) também, escreveu sobre os negros, mas continuou monarquista.

Isso tem explicação, e é justo mostrá-la.

O fato é que, como o classicista Goethe (1749-1832) também insinua na segunda parte do Fausto, o “mundo novo”, deflagrado pelas revoluções (sobretudo a francesa, contemporânea dele), republicano, coincidiu com a Revolução Industrial, o vale tudo pelo dinheiro, o capitalismo, os bancos, a exploração humana e natural, de onde justamente germina a conjunção econômica atual que estamos acostumados a criticar e que hoje pesa nos nossos dias e domina o mundo. (O alemão parecia antever ou temer as mudanças sociais, tanto que contrastava com a geração mais nova do apaixonado Beethoven (1770-1827). De fato, não por acaso, é com a Revolução Americana e depois com a Revolução Francesa que surge um novo indivíduo sem precedentes na História, o gênio romântico. Por isso talvez um conhecido certa vez me disse: “Goethe era frio, sem surpresas, seu mundo e seus personagens são como estátuas!”)

Se, por um lado, a Revolução Industrial traz consigo avanços de muitas ordens inumeráveis, agrava ou cria novos problemas do ontem, porque um novo tipo de classe dominante acaba se estabelecendo no mundo. Surge então o capitalismo e, com ele, o marxismo, o comunismo, o socialismo, o anarquismo.

Como poeta, devo dizer uma vez mais que não é verdade que a poesia morreu ou ficou lá no século 19. Aquela poesia pode ter morrido, mas surgiu toda a poesia moderna, experimental e de vanguarda. Outras poesias e artes – à altura daquelas e muitas vezes superior ou mais criativas – surgiram com os avanços sociais do século 20, onde a República brasileira começa a engatinhar, ainda atrasada e com momentos mínimos de liberdade (JK, João Goulart), impedidas por governos austeros, conservadores e por pelo menos duas ditaduras (Getúlio e 1964.)

OS ATRASOS NA REPÚBLICA E UMA SOLUÇÃO

Parece ingênuo dizer tudo isso quando vemos tanto atraso e elitismo na nossa República. Longe de mim dizer que, de repente, com ela, tudo ficou perfeito – não. A República brasileira (mundial?) hoje está contaminada por dois problemas de base que não deixam o país avançar em todos os sentidos positivos.

O primeiro é justamente a conjunção econômica que citei anteriormente, onde a política surge não do povo, de baixo para cima, mas de cima para baixo, com os grandes partidos (só quem tem dinheiro tem mais espaço, mais chance) lançando suas propostas, e que, no final das contas, independentemente do resultado das eleições populares, é aquela conjunção econômica internacional que toma de assalto as grandes decisões nacionais e globais e a própria democracia, entregando-a a grupos econômicos antidemocráticos.

Qualquer familiarizado com Chomsky ou com Saramago sabe disso.

E o Estado, cuja função seria justamente gerenciar ou vigiar isso, perde força diante dos FMIs, dos Bancos Mundiais, das cúpulas internas, das grandes organizações mundiais de comércio, enfim, das instituições dominantes antidemocráticas. Como se não bastasse, termina por se corromper com esse sistema capitalista através de escândalos assombrosos que envolvem o empresariado, as indústrias, etc.

O segundo problema é a hegemonia secular. Ou seja, esse país tem 322 anos (3 séculos!) de ocupação portuguesa e 195 anos (nem 2 séculos!) de independência conservadora, então, como era de se esperar, em mais ou menos 500 anos de história, o poder foi sempre dominado pela elite, por indivíduos distintos e distanciados do resto da população. Demora um tempo para as gerações herdeiras do atraso de tantos séculos irem embora e permitirem oxigênio e espaço para o novo.

O novo, diga-se de passam, é a juventude, os negros, as mulheres, essas camadas sociais que já governam o país em seus cotidianos, mas que precisarão entrar em peso na República e governá-lo também nas esferas políticas estrito senso.

Comments

  • O homem é o reflexo do seu tempo.Castro Alves ser monarquista faz um certo sentido,mas falar em monarquia hoje é de um anacronismo sem fim.

    Ademar Amancio 15 de agosto de 2017

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