Tive um caso com um americano lindo…

Tive um caso com um americano lindo que mora(va) em São Paulo, usava longos vestidos e longos brincos e pintava as unhas de preto. Sinceramente, apesar de Whitman, Elvis, Patti Smith e todo o jazz, americanos e americanas são sem graça para mim, melancólicos ao extremo (“Americanos sentem que algo se perdeu/Algo se quebrou, está se quebrando”, diz a letra do Caetano, com assombrosa verdade que eu não saberia retratar noutras palavras), por mais libertários, despojados, enfeitados que possam parecer (não assim com um inglês que me envolvi, que demonstrou sozinho maior vigor e alegria de viver do que os 2 americanos, mas esta é uma outra história que deixo para depois, com análise social, mas também corporal, filosófica e fisiológica nietzschianas…); de qualquer forma, eu o preferia cis do que na sua confluência de signos visuais conflitantes, uma androginia que não me parecia total, porque, cis, o american boy era lindo, parecia o protótipo dum modelo quase latino como eu, com um pouco de massa muscular e cachos… Mas, quanto a isso, ele, que fala muito bem o português e faz(ia) mestrado sobre LGBTs e judaísmo na Unicamp (sim, do ponto de vista da cultura e do intelecto, os meus americanos ganham de lavada do meu inglês, que não entendeu ou fingiu não entender um poema do seu compatriota Lord Byron usado na introdução do filme Into the Wild, que ele me deu um dia para assistir), tinha um bordão :

— Gênero é um constructo social…

Sempre concordei. Um dia — o último dia que nos vimos para nunca mais (nevermore, para ecoar outro americano) –, o corrigi, de forma respeitosa, misteriosa, solene, crepuscular, rimada:

— O EU é um constructo total…

Silence gives consent.

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