“Minha vida está no fim, mesmo tendo 30 anos: minha expectativa é de 35 anos, como trans brasileir*”

Comecei um texto de ficção assim, entre as pausas do meu romance Terra i Flutuação: Brasília (tenho citado bastante ele por aqui): “Minha vida está no fim, mesmo tendo 30 anos: minha expectativa é de 35 anos, como trans brasileir*.”

Não continuei. Por falta de inspiração? Por falta de vivência… Esta simples frase inicial me impactou, mas esteticamente, literariamente, dramaticamente, até cinematograficamente. Porém, no plano da “realidade”, se é que este plano existe (o empirismo é sempre relativo, equivocado e certo), não tem nada a ver comigo, de forma concreta: não sou trans, não tenho 30 anos, e minha expectativa de vida é outra. Não se trata, portanto, da morte em si, da grande morte, retratada classicamente, até mesmo por mim diversas vezes; trata-se dum perigo específico e iminente, duma morte provocada por uma violência social tangente da qual, pelo menos neste aspecto em particular, estou livre, como a maioria: 35 anos é metade da média nacional, porra… Como posso então sentir?! Empatia, claro, mas transmutar em arte? É a pergunta que o meu lado filósofo faz, deixando de lado o poeta, o escritor, o dramaturgo, o artista e até mesmo o político, que teria soluções, propostas e projetos para resolver este e outros descalabros mais. Pergunta mais ética do que estética? Foi a mesma pergunta — minha memória acaba de me lembrar — que Hamlet fez depois de assistir os atores recém-chegados em Elsinore representarem o trecho de uma peça antiga e tão alheia, mas, mesmo assim, tão sentida e tão chorada; Shakespeare chocando semioticamente o teatro no teatro, a arte na arte… Penso que posso desenvolver a frase num dos capítulos do meu próprio romance, ou quem sabe ela aponta para um outro texto… Depois a questão toda me faz lembrar também da Geni de Chico Buarque… Autor e personagem… Diferentemente talvez da Anna Karina no Viver a Vida do Godard chorando diante da Joana d’Arc do Dreyer, que lhe mostrava a própria vida dela, ou melhor, de sua personagem, quiçá de todas as mulheres, arquetipicamente… E também: “…Uma parte de mim é multidão… / …Uma parte de mim é todo mundo… / …Traduzir uma parte na outra parte… / Será arte?” Qual é a linha tênue entre arte e vida? Há linha? Fernando Pessoa criou uma dúzia de poetas diferentes dele, diferentes entre si!…

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