ATORES, MELHOREM? SOBRE TEATRO E LITERATURA. SOBRE A LITERATURA NA FORMAÇÃO DE UM ATOR.

Conheço raros atores que não disassociam literatura de teatro.

Geralmente os mais velhos e até mesmo os mais antigos – falo da geração dos anos 1960 e 1970, quando Sampa produziu grandes inovações no palco. Estão sempre lendo. Incrível. Questão de geração, de sentido de vida, de contexto, de formação pessoal e artística — questão de ensino: a ditadura fodeu tudo, inclusive a educação nas escolas, que hoje precisa recuperar o tempo perdido e esboça melhoras aqui ou ali, mas isto não é desculpa, pois sempre estudei em escolas públicas decadentes, tive algumas boas professoras e sou leitor visceral. Questão de transformações sociais, culturais, capitalistas: hoje grande parte da população mundial posterga ou deixa de lado o aperfeiçoamento de suas vocações e sonhos para ter uma vidinha digna através de seus empregos obrigatórios e dos quais não gostam, o que acarreta num imenso cansaço físico, mental, espiritual, e, quando têm tempo livre, é lícito gastá-lo com bobagens para compensar o sacrifício… Mas eles, já com seus 60, 70 anos de idade, afastados ou próximos dos palcos — para não falar daqueles que já se encantaram –, continuam lendo ou relendo os livros certos, os autores vitais, do mundo todo, mesmo aqueles que não foram dramaturgos. Se já não lêem mais, pelo menos leram muito. Sem falar de outras referências artísticas e cinematográficas transformadoras que os alimentam como atores, também buscam constantemente inspiração de interpretação e atuação na Literatura — não só nos tipos dos personagens, o que seria óbvio, mas também na psique própria da linguagem, do estilo e do texto, exercitando por tabela a fala, a voz, a leitura. Tive desentendimentos com um deles, mas tudo no nível do pessoal, faíscas típicas entre homens de gênio e personalidade; sou justo e tiro meu chapéu para eles.

Sei que atores de gerações posteriores — 1980, 1990, e agora — também fazem isto, mas a coisa foi piorando num nível absurdo. Hoje em dia, posso dizer, sem medo de errar: atores das novas gerações que fazem isto — leitores viscerais, ligando Literatura e Teatro, consultando livros — são raríssimos, muito mais do que antes, bem mais do que nas décadas anteriores, tão raros quanto o mico-leão-dourado e certos crocodilos da Amazônia … Mais raros do que poetas (bons ou ruins)!… Basta fazer uma pesquisa estatística pelas redes sociais, por exemplo, comparar perfis: há tantos poetas no Facebook (e existe coisa mais rara do que poeta e poesia?!); porém, há centenas de atores também, mas estão lendo? lendo pra valer? comprando, lendo livros? ou só aprendem a decorar peças e scripts?… Tenho exemplos para dar provenientes da minha própria vida, razão pela qual escrevo este texto.

Outro dia, conheci um menino, não sei se mais velho ou se mais novo do que eu, faixa dos 20 e poucos anos, ator estudando numa dessas escolas famosinhas de São Paulo, que me perguntou: “Você escreve pra teatro, né?” Respondi: “De vez em quando, de vez em nunca…” E ele: Como se chama mesmo? Drama…Drama…Dramaturgo?…” Ridículo não saber isto. Ridículo gaguejar, ridículo se esquecer e procurar esta palavra primordial na sua cabecinha. E ele não é exceção! O que é que ensinam nestas escolas?! E, mais do que isto, o que é que atores deste tipo estão indo buscar por conta própria?!

Mais recentemente, outro, 30 anos, veio me perguntar: “Machado de Assis escreveu alguma coisa pra crianças?” Pergunta lícita, mas me incomodou. Ficou explícito que não leu nem pesquisou nem estudou Machado a sério. Como era colega querido, respondi educadamente, expliquei algumas coisas, mas confesso que, escritor, leitor, fiquei puto com esta pergunta. Porra, trata-de de Machado de Assis! Não sei se meu colega merece perdão pelo fato da obra machadiana ser tão vasta em gêneros – sem contar que seu teatro é completamente desigual perto de suas crônicas, contos e romances… Na verdade, sejamos justos: existe um texto do Bruxo chamado “Um Apólogo” que até pode servir ou enganar… “Dom Casmurro” eu li e reli cedo, mas na pré-adolescência e na adolescência, porque é livro apelativo para os jovens… Enfim, a pergunta não parece tão condenável assim, mas ela me incomodou profundamente; impossível ter confundido com… Monteiro Lobato.

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