Quádrupla imagem do símbolo Lula

O que mais me fascina em Lula não é o Lula, mas a quádrupla imagem que fazem dele, todas interessantíssimas e mais ou menos equivocadas: 1) de um lado, inocente, sem provas concretas que o increminem, a única liderança realmente popular perseguida por todas as oligarquias nacionais por motivos eleitorais (isso convence os mais lúcidos, visto que seus detratores não têm boa índole, no entanto também é difícil botar a mão inteiramente no fogo por Lula); 2) do outro lado, um psicopata bandido, escorregadio, chefe de quadrilha, mestre em ocultar provas (imagem suspeita pintada pelos detratores, difícil acreditar que seja inteiramente assim); 3) de um lado, uma parcela da esquerda o vê como um revolucionário como Che Guevara ou Fidel, coisa que, sinceramente, ele está muito, muito longe de ser, porque, em termos práticos, não revolucionou nenhum dos sistemas brasileiros de verdade nem implantou reformas de base que fossem seminais, e é capaz de se aliar com o que há de mais terrível e tradicional na política, mesmo que seja com a melhor das intenções, isto é, para conseguir governar com um Congresso pérfido, onde sua popularidade nem sempre conta; 4) do outro, o vêem como um comunista, no sentido pejorativo e alienado do termo: esses são os mais burros, conservadores, néscios, papagaios da direita, visto que Lula e o PT não pressupõem nenhuma substituição total do capitalismo como prevê o comunismo, ao contrário, foi ele quem fez a maior capitalização da Petrobras, a relação promíscua e incestuosa com capitalistas e com o empresariado não foi deixada de lado pelo PT (inclusive sob pretextos vaidosos, já que os envolvidos eram “os redentores”, “a esquerda”, “roubando para o bem do povo” — os dissidentes, que criaram PSOL e Rede, sabem disso), e os banqueiros e os oligopólios nunca foram tão felizes quanto no governo Lula: os seus programas sociais investem, na realidade, num consumismo popular, inserem toda uma camada social de baixa renda ou de nenhuma renda no mercado e no consumo — isso tirou o país do Mapa da Fome e foi importante, mas não é nada de realmente revolucionário ou permanente em termos de longo prazo e de dívida histórica com a miséria e com o atraso, e possui o defeito de criar uma dependência eleitoral se não for aperfeiçoado: chame de social democracia ou de socialismo, se quiser, mas não deixa de ser capitalismo também.

Ps.: Malgrado todas as incongruências, é inevitavelmente a única liderança da esquerda; numa eventual briga triste, caso seja solitária, com aquele neofascista patético em 2018, terei que ser Lula: não sou de me abster, porque sei que política e exercício crítico não começam nem acabam com eleição…

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