Capitalismo, monoteísmo e potência de si

Para começar a atingir a sua autonomia e singularidade no mundo de hoje, o Homem precisa atuar (há pelo menos dois séculos) contra duas grandes supostas verdades sacralizadas: primeiro, a verdade tida como “única” do capital(ismo) e, segundo, a verdade tida como “única” de um deus só, monoteísta, distante, separado.

Isto é, dois axiomas montados, introjetados, que limitam nossas práticas, vivências, experiências internas e externas. Duas configurações ultrapassadas dos fundamentalistas, conservadores e tradicionalistas hipócritas.

É preciso colocá-los entre aspas, identificá-los, refutá-los, rejuvenescê-los ou mesmo destruí-los, não só fora, mas sobretudo dentro de nós. Estamos no que se chama de Século 21 (outra convenção) e ainda é preciso destruir ambos os tetos — monoteísmo e capitalismo — como forma potencializadora e libertadora de si. Evitar, portanto, o ressentimento, a impotência, a melancolia, de modelos impostos ou vigentes, como se nada pudéssemos a respeito deles, pois isso não passa de mentira ou de pessimismo inerte, improdutivo, silenciador. Evitar a iconoclastia ‘burra’ de ateus ou niilistas depressivos. Evitar a companhia de militantes e esquerdistas que apenas criticam e culpam, que lançam sombras terríveis sobre o presente, como se nos restasse somente a queixa e a lamúria, que castram, que promovem a impotência, que são impotentes, que não consideram a psique, que maltratam o inconsciente, que não propõem precisamente o novo em troca do velho.

Em paralelo com atuações externas, deve-se atuar no próprio inconsciente e na própria vida, numa transmutação, transformação, revolução efetiva da própria subjetividade resistente e diferente, buscando dispositivos pessoais e coletivos anti-depressivos e de libertação, potência, prazer, vitalidade, em paralelo (ou mesmo independentemente) dos resultados da “história material” de fora, que, aliás, também encontra sempre a surpresa, o novo, a reviravolta.

Um exemplo: poderia escrever que o Brasil ou o mundo só seriam bons quando se implementasse um salário incondicional para todos, porque sou grande entusiasta do Basic Income, ou só quando isso ou aquilo acontecer; esse tipo de pensamento radical, no entanto, é uma furada, porque, apesar das oportunidades desse modelo, independentemente do sistema, a problemática do modo de existir não se altera e, desde já, em paralelo com as as atuações a favor desse ou daquele projeto, é preciso buscar as brechas; saber como se relacionar sem subserviência a favor da sua vocação e compromisso.

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