De repente minha fonte secou e tudo me parece obra de um megalomaníaco

De repente minha fonte secou. Perplexo, olho meus poemas, prosas, ideias e escritos para cinema e teatro, e tudo me parece obra de um megalomaníaco. (Vai ver que foi por isso que Rimbaud não quis mais saber; Fernando Pessoa se autodiagnosticou histero-neurâstenico e a lista de doidos ou meio doidos que foram desprezíveis ou fodas – no bom sentido – é, como todos sabem, grande demais na História, proporcional à mania de grandeza lol. De perto ninguém é normal, todo mundo é mais ou menos neurótico, no mínimo: pelo menos deixarei algum legado positivo? Mas esse legado agora me assusta, porque parece feito por outro, embora o poeta seja sempre desapegado do homem comum mesmo, alguém que trabalha no inconsciente pessoal e coletivo: mas esse outro tomou minha vida e minhas madrugadas.) O fato de eu ser leonino pode ter contribuído, embora as pessoas confundam astrologia com horóscopo. Sem um diagnóstico profissional, “constatação” mais ou menos provisória fruto de conversas altamente sinceras com pessoas que foram próximas e que amei, mas já com evidências minhas e dos outros… Megalomaníaco? Fui um monstro pra alguém que não supriu minhas idealizações? Me coloquei degraus acima e cortei relações com quem não me reconhecia lá onde me botei como “grande” poeta, escritor, homem, artista? Que renegar de tudo o que produzi me atinge agora!… Que asco! Não que eu não tenha tido momentos geniais – seria até mesmo ridículo não os tê-los e ficar “me achando” sem talento algum -, mas sinto também como se tivessem perdido completamente o sentido. Como se tivessem tomado as horas da minha vida real. Como se eu tivesse me autodesmascarado. Como se eu tivesse destronado o usurpador impostor. Agora talvez faça sentido minhas preocupações filosóficas e espirituais – lenitivos? – sobre a aniquilação do “eu”… Agora talvez faça todo sentido minha insistência argumentativa a respeito da inexistência de uma realidade… Ao mesmo tempo, sinto-me abandonado pela magia da inspiração. Espero que seja passageiro (espero mesmo?!), porque até então a Arte e a escrita eram meu único gancho – mas agora não posso pensar em minha tendência e construção artísticas sem um pouco de medo, perplexidade ou cuidado – sinto até mesmo asco. Da arte ou do seu processo?… Estou me olhando injustamente?… A vontade – momentânea? – é de esquecer tudo e ir fazer outra coisa. Resistência. Que ironia, justo para mim, que sempre achei que a Arte é que fosse redenção… Acho que não consigo nem mais me reler… Asco. Que momento de lucidez!… Que cair de máscaras!… Que cair de ilusões!… Que descortinar!… Que tirar de panos!… Que horror de mim ou do outro, que prisão, confusão ou libertação?!… Na fímbria, no limite, na liminaridade entre o lúcido liberto e o megalomaníaco narcisista…

Não sei qual dos dois escreve essas linhas.

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