.a propósito de nietzsche.

nietzcheNietzsche sempre me intrigou. Há algo de fascinante e de terrível em sua filosofia. Sempre li desconfiado, com o pé atrás, pois desde quando devemos nos deixar levar por uma mente que enlouqueceu?! Os críticos de Nietzsche gostam de notar o óbvio, que na sua destruição de valores tradicionais ocidentais, incluindo o cristianismo, acaba por se perder num outro fundamentalismo próprio, ou seja, vai de um extremo ao outro, da iconoclastia para a auto-sacralização, mas o buraco é mais embaixo do que simplesmente esse. No começo meu incômodo não era claro, depois dei com a verdade. Foi num comentário de Bertrand Russel acerca de Nietzsche: o britânico denunciava o seu profundo ódio por praticamente tudo e todos, porque ele, Nietzsche, não seria capaz de amar a humanidade. Mas, naquela época, a filosofia de Nietzsche ainda estava maculada pelo terror nazista; depois do austríaco Hitler, todo alemão nos parece mais ou menos nazista, ainda mais quando incisivo como o grande filósofo. Não demorou muito para, depois, em meus estudos, eu notar que pouco se fala no quanto os gostos pessoais de Nietzsche são desprezíveis e suspeitos, com diversas exceções, é claro, como o próprio Zaratustra; mas ele também gostava de militaristas (seu bigode é quase semelhante ao de Guilherme II – só que para baixo), elogiava o facínora e maquiavélico Cesar Borgia, o ditador Napoleão, gostava dos personagens sem Deus de Dostoiévski, ou seja, de certa forma a mentalidade autoritária da Europa já estava ali. (Foi Heiner Muller, num vídeo que assisti recentemente, quem disse que Auschwitz nasce com o princípio de separação, de segregação, e que, anos depois de ter lido Dostoiévski quando jovem e de ter sofrido todo aquele processo histórico de forma muito próxima, ligou os pontos entre o personagem doistoievskiano que, por se achar da elite como Napoleão, é capaz de espancar cruelmente uma idosa, sentindo-se superior, isto é, já encarnando o pensamento nazista; portanto, para ele, Auschwitz já estava inconscientemente dentro da mentalidade europeia há muito, muito tempo). Não sei se já escreveram sobre isso, se já fizeram esse paralelo, mas não parece óbvio que aquele alemão complexado surtasse e caísse aos prantos ao ver um homem espancando um cavalo, isto é, encarnando justamente todo o ímpeto imoral toda a força que ele mesmo tanto defendeu?… Interpreto o famoso episódio como espécie de impasse existencial profundo e sem volta… Sua formulação do suprahumano acima do bem e do mal, capaz de passar por cima de tudo e de todos, mais ou menos incerto – porém utilizando-se dessas referências que citei acima e que resgatam uma Alemanha/Europa fria, indolente, imperialista, militarista – sempre foi, repito, fascinante e terrível para mim. Fascinante, porque, de fato, nos sentimos mais fortes quando nos colocamos no topo de tudo. Terrível, como espécie de enorme furada. Seus seguidores geralmente não sabem de tais detalhes sórdidos ou evitam, não comentam – ou talvez simplesmente descartam. É muito mais fácil dizer que sua irmã, herdeira de seu espólio, é que era a ariana antissemita e ponto final. (O que não subscreve, de forma alguma, as distorções que se fizeram com o exclusivo aval dela.) Uma parcela significativa da pós-modernidade, urdida das ruínas da segunda grande guerra, gosta de criticar Freud, Einstein, Nietzsche, noutras palavras, a técnica, o progresso, e a valorização do homem em detrimento do antigo absoluto (apostas modernas por excelência), dizendo que como resultado produziram nada mais nada menos do que a bomba – crítica com mínimo fundo de verdade, mas simplista, pois já se matou muita gente também em nome de um deus – esta subjetividade que de fato perdeu a força com a obra daqueles três germânicos de peso… Mas os melhores nietzschianos apostam e investem na potência do homem, encorajam o fraco, sacodem a poeira das instituições que cerceiam o ser, trazem a macropolítica para perto de nosso corpo e a transmutam em espaço de ações e transformações singulares, procuram despertar a força criativa de produzir acontecimentos, de sermos criadores de nossas próprias vidas, de sermos transgressores – sobretudo a partir da percuciente geração que passou pelas reivindicações políticas de 68, com Deleuze, Foucault, Derrida… Releitura fundamental. Tal postura essencialmente positiva, de certa forma, está, sim, em Nietzsche, para não falar também na sua linguagem poética primorosa e absolutamente singular. Ela sempre me fascinou; o resto, bem, ainda é confuso para mim por todos os motivos expostos e terríveis; talvez eu goste mais dos seus (re)leitores, defensores, do que dele próprio. É o que interessa, enfim.

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