Acabo de rasgar sete páginas de um ensaio onde eu comentava a sexualidade de Kafka…

Acabo de rasgar sete páginas de um ensaio onde eu comentava, pródigo em citações e referências, a sexualidade de Kafka, na verdade assexuado, torturado pela possibilidade de qualquer contato físico, “eunuco”, impotente, virgem, anti-sensual, quiçá homossexual reprimido ou heterossexual que era atraído mas que adiava o contato com suas pretendentes. Talvez como uma forma de expurgo, de terrível incômodo, rasguei com ódio, com repulsa do fantasma tcheco, e também com prazer, porque a vida sexual daquele pobre homem — que se defendia, através da Literatura, da sua família medíocre, da possibilidade de matrimônio obrigatório e de vida conjugal aprisionadora, do nazismo europeu, do capitalismo americano, da burocracia soviética, do trabalho alienado no escritório, enfim, que se defendia sabiamente, mas em dupla salvação e danação, de qualquer mecanismo de poder e estrutura social, e também da saúde miserável e do sexo — é drasticamente diferente da minha, visto que a vida sexual dele era nula.

Que horror!

Parece que até Fernando Pessoa não transava, outro que, suspeita-se em fontes cavadas, teria morrido também virgem, ou porque não tinha capacidade de se relacionar com mulheres ou porque foi homossexual reprimido, ou os dois, encontrando vazão da liberação dos seus desejos na inspiração poética. Mas Pessoa tem versos e textos amorosos e eróticos aqui e ali: Álvaro de Campos, inspirado por Walt Whitman, escreve mais de uma vez trechos homoeróticos explícitos (“Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes…”, que Caetano de Veloso copiou numa de suas letras / “Freddie, eu chamava-te Baby, porque tu eras louro, branco e eu amava-te, Quantas imperatrizes por reinar e princesas destronadas tu foste para mim!”), e o poeta ele mesmo legou correspondências íntimas (“todas as cartas de amor são ridículas”?) cheias de beijos e carícias para Ofélia (quase a do Hamlet, que a rejeitou), tímida, recatada, típica lisboeta dos anos 20 — ao contrário de Pagu, por exemplo…

Enquanto isso, de certa forma contemporâneo, Kafka (Deleuze chamou-o de “vampiro”, prendendo suas presas distantes através de cartas) enchia suas pretendentes de promessas vãs e encontros adiados, não só porque queria colocar a liberdade artística e a literatura na frente de qualquer romance ou obrigação (o que é válido, já que um casamento — e as mulheres pensam quase sempre, e ainda mais naquela época, em casamento — atrapalharia toda a sua necessidade vital de escrever fulltime), e não só porque ele era hipocondríaco, mas sobretudo por causa daquela sua terrível castração sexual/sensível/corporal refratária que me atinge só de pensar quão horrorosa devia ser, a mim, que, apesar da introspecção e de temas profundos, prefiro a vida sensorial, às vezes boêmia, de preferência sexualmente satisfatória. Num trecho de seus diários que jamais me esquecerei, sobretudo porque o versifiquei meses atrás, em versos que se encontram neste blog, ele diz, com outras palavras: “Estou na frente de um solteirão que me quer, como um morto que aparece para puxar um nadador cansado até o fundo do oceano.”

É preciso considerar que Oscar Wilde, mais corajoso, teve triste destino…

Proust, como Kafka, escrevia muitas cartas, sim, mas, totalmente ao contrário deste, dando instruções bem precisas de como, onde e quando rapazes e homens (creio que nenhuma destinatária mulher) poderiam encontrá-lo.

Ah, o Brasil quente e sensual, onde não existe pecado, ah, a revolução sexual ocidental dos anos 60 e 70! Vão de retro, eunucos, reprimidos, sexualmente frustrados, clientes de Freud! Nesse ponto, tenho orgulho de ter nascido depois e aqui. Escrevo isso com a ironia muitas vezes mentirosa de escrever isso.

Nós aprendemos a admirar esses homens e suas obras fantásticas, cujas existências e vidas particulares nem sempre são admiráveis ou fantásticas. Amo a obra de Pessoa, a obra de Kafka me rodeia, mas será que eu os quereria por perto?! O amoroso Mario de Andrade — cuja (homo)sexualidade, aliás, também foi reprimida na vida pessoal e posteriormente, durante décadas completamente omitida e censurada por seus parentes restantes — perguntou a mesma coisa em relação a Machado de Assis, admirando sua obra, mas declarando que não gostaria de tê-lo por perto. Logo o Machado, pessimista, sim, aqui e ali, mas igualmente irônico e despojado?!…

Vai, a obra de Pessoa tem algo de simpático sobre esse assunto de sexo, amor, erotismo. Diferente de um Kafka cheio de escudos. Mesmo nos temas em que possam ser realmente comparados — a poesia tardia de Álvaro de Campos, pós-moderna, desencantada do mundo moderno, assim como os processos sociais alienadores e devastadores que estão em Kafka –, Pessoa é, obviamente, mais português, mais sentimental, mais dramático, mais exagerado, afinal escreve em versos, e ligeiros, às vezes torrenciais, enquanto que Kafka é prosa nada poética: protocolar.

Ps.: É preciso confessar a verdade — não rasguei o ensaio, porque não há ensaio escrito em papel físico, apenas apaguei o texto e depois deletei o arquivo do meu computador. É que “rasgar” confere ao gesto caráter mais dramático e emotivo, que é o que de fato aconteceu aqui dentro de mim. Ainda agora, enquanto vou terminando essas linhas, a imaginada presença do fantasma de Kafka me assombra no canto do quarto, nessa noite onde estou só, sem ninguém e sem tesão. Vá de retro! Não renego a tua espetacular ficção, não menos terrível, porém, que a tua vida e que a própria História, mas justamente porque foi onde você encontrava gozo inestimável ao escrever.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *