Ferreira Gullar morreu…

Ferreira Gullar morreu. Todos sabem que me coloquei ao lado de Augusto de Campos na discussão que ambos tiveram, sem, contudo, desprezar a importância poética do autor da Luta Corporal e do Poema Sujo, duas obras inovadoras e revolucionárias. Suas posições políticas sempre me inquietaram: ele foi comunista, depois deixou de ser, virou careta de crítica seletiva: cheguei a lhe enviar um longo e-mail para que ele usasse do seu espírito crítico e da sua figura pública para não falar mal apenas do PT, mas também do oportunismo do falso impeachment e da corrupção do blindado PSDB, coisa que ele jamais faria, pois tinha amizade com muitos deles, então sempre vi um certo ressentimento pessoal e infantil – para não falar ingenuidade, incongruência, ou puro serviço pago de oposição – de sua parte com o PT. Ainda que ele tenha sempre argumentado coerentemente, o fez de forma simplista e seletiva, de modo que sua bronca – mesmo sendo respeitável, sobretudo acerca dos desvios petistas – me pareceu sempre pessoal e suspeita. Lá nos anos 70, o Partidão dava toda estrutura para ele fazer seus poemas de ordem social (Décio Pignatari chegou a gozá-lo e chamá-lo de Pablito brasileiro) e, de uns anos para cá, se alinhou com gente suspeita da política e foi parar na conservadora e careta ABL. Um aproveitador de situações? Um oportunista? Um vendido? Uma metamorfose ambulante? Talvez. Há quem tenha dito que ele esteve sempre do lado errado da história: primeiro stalinista, depois conservador. Conservador inclusive com os rumos da arte contemporânea… Mas seus apontamentos sobre arte em geral sempre me pareceram sinceros e apaixonados. Seu posicionamento sobre os acertos e erros do marxismo é correto. Apesar de tudo, ainda residia nele o senso de justiça social, igualdade e liberdade. Luta Corporal é seminal, divisor de águas, ainda que depois, por conta de tamanho impasse estético, tenha se notabilizado em escrever versos bonitos, mas menos ousados, com a influência gritante de João Cabral e Drummond. A cisão que houve com os inventores da Poesia Concreta foi produtiva para as novas gerações repensarem os rumos da nova literatura nacional, ainda que o futuro estético germinado pelos concretistas tenha sido mil vezes mais criativo e importante do que o futuro adotado por Gullar. Seu último texto para a Folha, sobre marxismo e capitalismo, assim como sua obra poética, merece ser lido. Nesse texto, ele revela um impasse contemporâneo e expressa, como muitos de vocês sabem, a minha maior preocupação atual sobre os rumos do capitalismo. Sempre achei muito injusto, no entanto, que ele, provavelmente por ser mais dotado de senso comum do que de vasta erudição, com certeza por ter abandonado a vanguarda, tenha tido mais fama do que um Décio Pignatari ou um Augusto de Campos. O Brasil é privilegiado por ter tantos poetas díspares: Oswald, Drummond, João Cabral, Pignatari, Campos, Gullar…

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