Sobre Rothko e Pollock

Continuando com meus textos sobre arte moderna do século XX, depois de comentar sobre Amilcar de Castro, vale recair em Mark Rothko e Jackson Pollock, dois dos artistas mais instigantes do século passado, amados por uns, odiados por outros, e considerados expoentes do expressionismo abstrato, embora ambos não gostassem dessa designação. E qual artista gosta do estigmatismo?

Clique para ver melhor: detalhe de "Preto sobre Marrom" (1959, Rothko) e detalhe de "Convergência" (1952, Pollock).

Clique para ver melhor: detalhe de “Preto sobre Marrom” (1959, Rothko) e detalhe de “Convergência” (1952, Pollock).

A verdade é que, quando os conheci, não os ignorei, tampouco me senti agredido, como acontece com a maior parte das pessoas, e cheguei até mesmo a experimentar paixão à primeira vista. Duas circunstâncias explicam: primeiro, temperamento pessoal; segundo, desenvolvimento intelectual da sensibilidade. Acredito que a aproximação direta com o jazz, desde que vim morar em São Paulo e ainda estudava saxofone, ampliou meu repertório geral, inclusive em relação às artes plásticas.

Qualquer “abstracionismo” imagético é música em estado puro. Pessoas que torcem o nariz para essa arte são provavelmente as mesmas que torcem o nariz para música instrumental. (Os instrumentistas sabem disso; lembremos das capas dos discos de Stan Getz, inclusive aquele clássico gravado com João Gilberto e Tom Jobim; lembremos da capa de Free Jazz, disco do Ornette Coleman, e assim a arte abstrata dialoga constantemente com a música instrumental…)

Voltemos a Pollock e Rothko: a primeira coisa que salta aos olhos é como esses dois artistas são coerentes. Ambos sabiam desenhar formalmente e, inclusive, há alguns materiais figurativos e realistas dos dois por aí, prova de que eles não eram pintores destituídos do talento tradicional. É importante que se lembre disso, embora muitos não saibam, porque chegamos à conclusão de que eles destoam não somente do aceitável em termos exteriores, mas principalmente em termos aprendidos e introjetados de expressão e repertório pessoais.

Noutras palavras, poderiam passar a vida inteira pintando de maneira mais óbvia. Basta um artista – de qualquer área – fazer isso e, no entanto, estará desperdiçando a enorme chance de alargar os limites estéticos e espirituais do seu público e de si mesmo. (No documentário da BBC O Poder da Arte, no episódio sobre Rothko, é mostrado, inclusive, a sua recusa de cerca de 5 milhões de dólares!, porque não permitiu que um de seus quadros decorasse um restaurante chique de Nova Iorque, com frequentadores “fúteis” comendo e incapazes de fruir sua arte.)

Além disso, a prova de que sabiam desenhar tradicionalmente acaba reforçando outro elemento primordial: o comprometimento artístico desses pintores com seus estilos e com um caminho espiritual indissociável. Basta bater o olho e sabemos que é um Pollock, basta bater o olho e sabemos que é um Rothko. Coragem e autonomia. Assim como um Mondrian ou um Malevich, eles tomaram um rumo sem volta.

O que me fascina em Pollock é como a sua desordem forma um todo coerente. Seu processo também é fascinante: abdicação de pincéis, abdicação de cavaletes, dança e gotejamento por cima do quadro. Há uma luta ou uma harmonia com o acaso. Por isso, espanta, após olharmos seus quadros, saber que ele ainda fazia retoques posteriores: não era um improviso qualquer, não era um mero fluxo de consciência. De qualquer forma, se ele possui algum pecado, é o fato de que sua obra serve como exemplo máximo da arte moderna cujo caminho está demasiadamente próximo do processo do que de qualquer sentido de produto final.

Já Rothko, diferentemente, possui maior nível de intenção e supera isso. Para mim, seus objetivos são muito claros e explícitos: o despojamento total para atingir o cerne do humano. Ele mesmo chegou a dizer que o que queria era expressar os sentimentos mais básicos. Nele, o que importa são as cores e seus impactos emocionais. Seus quadros, quando contemplados por muito tempo, começam a nos impactar internamente, porque as cores possuem força, energia, são como auras plasmáticas. Gosto particularmente de seus portais, entradas, passagens.

Gostaria de insistir em Rothko: seus quadros, propositalmente enormes, nos engolem e nos puxam para dentro deles, fazendo-nos participativos. Parecem telas transcendentais de cinema. As cores e intenções são dispostas bem na nossa frente, sem desvio, sem distração, numa captação total do olhar. Não é, portanto, uma “vanguarda” fria, distante, meramente formal (nem o rebelde Pollock é frio). Ao contrário, aguça os sentidos, é poética, visceral, os nervos estão expostos, ele tem algo a nos dizer, está a nos convidar, a nos mostrar ou – dentro de sua carga contemplativa, transcendental e silenciosa – a nos ouvir.

Escrito em 04/05/2016

Tags: Mark Rothko, Jackson Pollock, Rothko Pollock

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