Notas sobre arte, homem moderno, consumismo, e espiritualidade

o mais sensível dos homens não se conforma com o rumo que o mundo tomou e sente-se iluminado quando encontra outros homens sensíveis com quem possa levantar questões realmente significativas

como robinson crusoé que, depois de certo tempo na ilha aparentemente deserta, encontra uma pegada na areia, buscamos a voz reconhecível dentre todas as outras que não passam de burburinho fútil

no começo, a sensação é a de não pertencer a esse mundo, sensação de tamanha lucidez quando todos já te anunciam como louco, e por mais que você se encontre com variedade absurda de seres humanos – como eu tenho encontrado – parece que você não gosta muito dos exemplos que a vida oferece

o fato é que há grave perturbação quando nada do que é imposto, dito e feito pelos outros faz muito sentido para você

uma sociedade que, rejeitando qualquer proposta de auto conhecimento, vicia e depende cada vez mais de remédios para curar os males psíquicos da alma, só pode ser doente

e as famílias, as ruas, as cidades, os empregos, as carreiras, os modos de vida, nada disso te estimula, e não porque você rejeita qualquer informação externa com arrogância por conta do seu próprio modo de vida, mas porque você adquiriu repertório existencial e também artístico que te faz extremamente crítico a tudo que não parece grandioso, a tudo que é característico da alienação, e isso inclui muitas vezes a sua própria existência

como o jovem que, deixando os livros dos grandes poetas, vai para a realidade e se decepciona

da mesma forma, estamos todos sedentos, famintos, não mais por conhecimento, que é facilmente adquirido de uma forma ou de outra, mas sedentos e famintos por algo de valor espiritual que nos alimente profundamente em territórios cavados que a brutalidade de informações e imagens cotidianas não alcançam

a figura do poeta nunca foi tão necessária, porque mesmo as grandes artes – música, cinema, teatro, literatura – foram tocadas pelo fator econômico, pela distribuição em massa que traz consigo mais prejuízos que benefícios, pelo teor comercial de produto cultural, e o poeta, definitivamente, não tem vez nesse século, não está nos holofotes, ninguém fala sobre o poeta e, por isso mesmo, um (bom) poema nunca foi tão necessário e libertador

mesmo o artista mais fiel precisa pensar no fator econômico quando vai criar; não assim com o poeta, para quem não há nenhum resquício de expectativa financeira, daí a sua liberdade total no ato de criação, liberdade essa que nenhuma outra arte pode supor, porque todas elas dependem de fatores processuais de ordem coletiva

já faz algumas décadas, e isso se intensificou no final do século passado, que o homem moderno se vê no meio de uma encruzilhada fatal; ou ele se entrega a este mundo cada vez mais consumista e materialista ou busca fontes espirituais adormecidas

o homem do século XXI se encaminha sempre para um equilíbrio entre ambas as coisas, até mesmo por conta de sua própria defesa e sobrevivência material inerente

porém, a proposta de ruptura seminal, tão presente em líderes espirituais do ocidente e do oriente, e mesmo a ideia de sacrifício cristão, tornaram-se completamente antiquados aos nossos olhos, e a vida material tomou outras proporções e novas significações – um bom exemplo é o dinheiro: tradicionalmente, os brasileiros sempre viram o dinheiro como pecaminoso e sujo, mentalidade tipicamente cristã, porém esse pensamento tem mudado de maneira drástica, em grande parte porque outras doutrinas, como a evangélica, ou as que se dizem espiritualistas, começaram a debater velhos tabus nacionais sob diferentes pontos de vista que outrora eram condenados

o fato é que este equilíbrio entre uma vida consumista e uma entrega espiritual nunca é inteiramente realizador, e a prova está nas inúmeras insatisfações cotidianas deste homem que carrega consigo não sei quantos séculos de civilização

este homem que precisa a todo momento tomar escolhas decisivas para si e para todos

meu ponto de vista é o de que, se existe mesmo espírito, ele deve dominar a matéria, mas não é isso que tem acontecido de maneira universal: a matéria é que tem cada vez mais dominado e controlado o homem; dessa forma, estamos todos caminhando para uma catástrofe transformadora.

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