Literatura e Filosofia: encontros possíveis e potentes demais

O que há de comum entre a grande literatura e a grande filosofia? Sabemos que a diferença essencial é o fato da primeira, como todas as artes, lidar com os perceptos (conjunto de sensações e percepções que vão além daquele que as sentiu), enquanto que a filosofia lida com conceitos, cria conceitos. Mas há encontros possíveis entre perceptos e conceitos, afinal, um grande personagem tem tanto magnetismo e potência quanto um grande conceito filosófico. O que há de comum? Pode ser a afirmação da vida que há nestas duas atividades. Só podem acontecer por meio de uma pulsão e jorro de vida. A força e a energia que surge delas, garantindo, portanto, a efetuação de uma potência central e várias outras adjacentes.

Escritores e filósofos são, no geral, visionários: enxergam e enxergaram algo não somente além ou muito longe, mas sobretudo algo grande demais. Grande demais para quem? Para um sujeito, independentemente de ser escritor, poeta, artista ou filósofo. Isto é o que eu chamo de uma potência potente demais: assim como falei, num vídeo por aí no YouTube, sobre os três graus básicos (podem existir inumeráveis outros) da potência, pensando mesmo na forma de um termômetro: um grau mínimo, um grau intermediário e um grau excedente, sendo este último o responsável por fazer com que escritores, filósofos e artistas e pensadores no geral não tivessem uma boa saúde ou fossem até mesmo trágicos.

Por que pensamos que o bon vivant é quem vive mais e melhor? Talvez seja o oposto do bon vivant, justamente o hipocondríaco ou o doente ou o disfuncional, isto é, aquele que é exatamente um largo canal de muita vida, por onde passa vida demais, canal de muitas potências, de modo que não consegue suportá-las. Perto deste modelo de vida, o bon vivant é apenas superfície, é um mar sem ondas (como Nietzsche chamava os entediados românticos, em contraposição ao visceral e borbulhante dionisíaco), mais ou menos apático, sem tanta expressão e potência quanto acha que tem. E o que é o extremo oposto, o que é profundo? O dionisíaco? Talvez profundo seja o que o grande e influente Artaud (em sua genialidade e em seu processo esquizofrênico) reivindicou através da sua “crueldade” (palavra artaudiana estética, teatral, mas também filosófica, quando Nietzsche a usa em sua fisiologia da arte), onde cai – na experiência esquizofrênica – a fronteira entre as preposições e as coisas, tomba a superfície dos corpos por onde corre todo o sentido, fazendo com que Artaud se irritasse diante de “Jaguadarte”, poema experimental de palavras-valises do grande Lewis Carroll. Para Artaud, tal experimentalismo nonsense (ou “não-sentido”) não tinha por que, diante do fato esquizofrênico de que tudo é corpo, tudo é física, tudo é físico, e que, portanto, mesmo o experimentalismo, palavras e poema de Carroll viram bosta, merda, junto com sangue, com deus(es), sociedade, literatura, filosofia, sujeitos, tudo, numa zona profunda e potente onde todas as coisas convergem…

Dito isto, pensamos automaticamente em vários exemplos de escritores, artistas e filósofos que foram largos canais, que não suportaram a potência potente demais: Kafka, por exemplo, caso elementar do estranho, do excluído, do hipocondríaco (tal palavra aparece em seus próprios diários). Tchekov, que ficou tão arrasado. Esses dias mesmo, acrescentando algumas coisas no verbete da Wikipédia sobre Machado de Assis (cujo texto redigi em 2008, há mais ou menos 10 anos), me deparei com várias fontes sustentando que o nosso grande escritor tinha uma série de problemas, que, já no ano final de sua vida, 1908, consultou-se diversas vezes, tanto na medicina tradicional quanto na homeopatia, para tratar sobretudo os seus ataques epilépticos (quem aí não se lembra daquela histórica foto dele, de costas para nós, sentado num banco da Praça XV, no Rio, acudido por uma multidão de homens?) – epilepsia tal qual Doistoiévski (teve, se não me engano, cerca de 40 ataques epilépticos na vida adulta) e, segundo o próprio Machado, em carta para um amigo, Flaubert. Nietzsche teve de se aposentar por problemas quase insolúveis para a medicina, até seu colapso mental derradeiro, e há linhas e páginas onde ele diz que a doença faz parte da vida. Espinosa, conforme Deleuze deixou claro em seu livro-retrato sobre este grande filósofo, também não tinha uma saúde perfeita.

Que forças são estas?! Dentro da “cultura pop”, com vários outros agravantes, desde opressivos holofotes até exacerbação, os casos irregulares continuam sendo infindáveis, na música clássica e na música popular, na boemia do samba, na mpb, no rock, no cinema, etc. Seria, provavelmente, a potência de um conceito, a potência dos perceptos?

Há um belo e relativamente conhecido texto de Borges (“Everything and Nothing”) sobre Shakespeare que me ajuda a explicar a potência de um percepto, a potência da arte, mesmo teatral, onde (no teatro) a literatura tem a oportunidade de ser corpórea e prática: “(…) Durante vinte anos persistiu nessa alucinação dirigida, mas certa manhã o assaltaram o tédio e o horror de ser tantos reis que morrem pela espada e tantos amantes infelizes que convergem, divergem e melodiosamente agonizam. (…)”

E, em relação à filosofia: no belíssimo filme de Dreyer (qual filme dele não é belo?!), “A Palavra”, há um personagem em crise que enlouqueceu lendo Kierkegaard…

O CASO DA POESIA: POESIA, PROSA E FILOSOFIA

Já escrevi, em textos mais minuciosos deste blog – e pretendo reunir e desenvolver melhor todos esses textos espalhados num livro apropriado e mais coeso -, que poesia e filosofia são quase antagônicas. Mesmo poesia e literatura podem ser vistas como antagônicas: Ezra Pound achava que a poesia não pertencia à literatura; para Paulo Prado, a poesia tem duas inimigas: a filosofia e, vejam só, a literatura; Décio Pignatari, em seu O Que é Comunicação Poética?, aponta, já na primeiríssima frase do livro, que a poesia está mais próxima da música e das artes plásticas e visuais do que da própria literatura, sendo, portanto, corpo estranho dentre todas as outras artes da palavra. Por que será? Não é difícil de entender, basta comparar textos em prosa e textos poéticos (em versos ou não necessariamente em versos, mas tampouco em prosa, pois a poesia já logrou tal liberação.)

E em relação à filosofia, por que quase antagônicas e, em determinados momentos ou de determinado ponto de vista, decididamente antagônicas? Quem respondeu isto bem foi o Charles Sanders Peirce, pai da semiótica. Isto porque a filosofia, quando não é oral, se expressa sobretudo com a prosa – e a prosa (de literatura ou filosófica ou qualquer outra) leva necessariamente a conclusões, por sua própria estrutura intrínseca e interna, enquanto que a poesia corta o logos, não tem compromisso com a lógica ou com a razão, tampouco com a conclusão (todos estes recursos são fundamentais na filosofia e, de certa forma, até na literatura): quando terminamos de ler um poema – seja qual for o tipo de poema, metrificado, sem métrica, com ou sem rima, com ou sem verso, intermidiático, experimental, tradicional etc. – voltamos sempre ao seu começo, num ciclo sem fim. Portanto, além da dicotomia percepto/conceito que há entre literatura e filosofia, há, entre poesia e filosofia, sistemas semióticos e textuais (ou não-textuais) distintos. Apesar disso, existe o “poético”, até mesmo na prosa; poético, em termos de T. S. Eliot: “tudo aquilo que é entendido antes de ser explicado.”

PERCEPTOS NO LIMITE DO SUPORTÁVEL E CONCEITOS NO LIMITE DO PENSÁVEL

Voltemos ao início, onde eu escrevia sobre os limites dos perceptos e conceitos. “No geral, são perceptos no limite do suportável ou conceitos no limite do pensável”, nos confessa Deleuze, no Abecedário de Deleuze. “Entre a criação de um grande personagem e a criação de um conceito, eu vejo muitas ligações. É como se fosse a mesma empreitada.” Empreitada esta que envolve muitos processos, obstáculos, passagens: desde linguísticos, passando por devires mútuos, até sistemas corporais, físicos. Apesar de literatura e filosofia serem áreas semioticamente distintas, isto é, com configurações, métodos, resultados e outros signos específicos, são capazes de convergências e confluências.

Deleuze continua: “Pode-se conceber um filósofo que também escreva romances. Sartre tentou fazer isso. Não foi nenhum… Para mim, Sartre não era um romancista, mas ele tentou. Será que houve outros grandes filósofos que escreveram romances importantes? Nenhum que eu conheça. Mas sei de filósofos que criaram personagens. Isso já aconteceu. Platão criou personagens. Nietzsche criou personagens, como Zaratustra. Aí estão os tais cruzamentos dos quais estamos sempre falando. A criação de Zaratustra, tanto poética quanto literariamente, foi um grande sucesso, assim como os personagens de Platão. São pontos em que não se sabe mais o que é conceito e o que é personagem. Estes talvez sejam os momentos mais bonitos.” Lembrando que Nietzsche também foi ótimo poeta, de versos mesmos, muitos deles terminando alguns de seus livros.

Que “limite do suportável” seria este, que “limite do pensável”? Darei um resumo:

O limite do suportável – Associamos automaticamente a um conjunto de percepções e sensações (perceptos) potente demais, carregado de sentidos, teia complexa de fatores e pulsões de vida, de estética, etc. Pensamos logo em Ezra Pound no seu ABC da Literatura: “A grande literatura é apenas uma linguagem carregada de sentido até ao mais elevado grau possível.” Pound, como poeta moderno, pensava em recuperar todo o tipo de poesia do globo inteiro, de todas as épocas possíveis, e misturar toda esta carga ancestral com o contemporâneo, sendo que este contemporâneo abarca, inclusive, todas as línguas contemporâneas possíveis. Este foi o objetivo do seu Cantos, que tem inglês antigo, medieval, moderno, chinês, português, italiano e infindáveis outras. James Joyce, na prosa, seja no Ulisses, mas, sinceramente, sobretudo no Finnegans Wake, tinha o mesmo veio essencial. Essas coisas formam uma amálgama esteticamente potente demais, que pode levar o sujeito até à loucura ou à neurose extrema. Mesmo assim, configura-se numa zona de alta criatividade artística. Pensemos em outros desvarios laboriosos da literatura, seja o Fausto 2 de Goethe ou o Grande Sertão: Veredas… Para criar obras como esta, é preciso deliberar uma energia feminina (da concepção e do “esquentar a cria” como uma galinha em cima dos pintinhos) praticamente sobre-humana, suprahumana, que leva até a morte, a não ser que o escritor queira logo se livrar disso publicando. Além do fator técnico-estético, há o fator “temático” ou “conteudista” dos perceptos (que, para certos teóricos russos e mesmo para Pierce, pai da semiótica, não haveria diferença entre ambas as esferas, “forma” e “conteúdo”): certas tramas, enredos, personagens, nos tocam e nos levam também por direções próprias, quase infinitas, como o Moby Dick do Melville, entre o capitão Acab e a baleia, nos levam por meio de seus devires, que podem ser experimentados por nós, causando-nos arrepio, entusiasmo, a potência de um choque elétrico, uma decisão, uma influência etc. etc. etc. (Lembremos que os perceptos abrangem todas as artes, mas este texto em especial lida só com a literatura, e mesmo sobre ela fui apenas rudimentar e passageiro; se falássemos na pintura, por exemplo, quem senão Van Gogh, com suas profundas e viscerais pesquisas da cor e seu diagnóstico pessoal, exemplifica de forma absoluta o gênio imbuído num percepto no limite do suportável?)

O limite do pensável – Imagino logo o terreno da fímbria, da costa, da beira do abismo, da ribanceira, da beira do penhasco. A força de certas filosofias leva a isto, porque a filosofia é um gênero que lida o tempo todo com a potência do infinito: pode se debruçar sobre tudo, até sobre ela mesma, infinitamente. Neste infinito “subjetivo”, parece por um momento que nos perdemos, que tudo é caos, como uma obra do Pollock, mas não é verdade: o filósofo é o ponto de vista. Para deixar este processo mais claro (já que a filosofia não é abstrata, mas concreta), pensemos em Leibniz, que se debruçou no triângulo de Pascal, um triângulo infinito. (Entramos rapidamente na matemática – outra área com signos e potências próprias – para voltarmos para a filosofia.) Este triângulo, que se desenvolve infinitamente, possui algo de “fixo”, possui, em termos de Leibniz, uma mônada em meio a tantas somas, operações, dobras incontáveis, infinitas: é a potência de 2 (ou o 1 no topo do triângulo), é a potência do ponto de vista que, no caso colocado aqui, não deixa de ser o filósofo, ou o leitor de filosofia, o sujeito. Eis o “limite”, tão tangente quando nos deparamos com a filosofia de um iconoclasta como Nietzsche, e que ele mesmo o expressou tão bem: “Quem luta com monstros deve ter cuidado para não se tornar um monstro. E se olhas demoradamente um abismo, o abismo olha para dentro de ti.” (“Além do Bem e do Mal”). Mesmo Espinosa, é outro que vai longe de mais, e nos leva juntos, de forma mais sublime do que Nietzsche, apesar de ter sido excomungado. Estes dois e muitos outros filósofos nos fazem lembrar que a filosofia deve colocar problemas socialmente, religiosamente, politicamente malditos e proibidos que não se ousa ser colocados frequentemente (muito menos na época dos dois) e conceitos que põem em xeque toda uma formação social, todas as estruturas seculares, milenares do ocidente, etc. Não por simples rebeldia ou mera provocação, embora ambos os fatores contem, mas é mesmo um sério sentido de liberação do pensamento para uma rota ardente, borbulhante, vibrante que talvez não tenha volta, cujo sentido é sempre ir mais e mais para frente, mais e mais fundo, até o limite do pensável, configurando o efeito de uma bomba, de um explosivo, de uma potência potente demais, capaz de nos empurrar, de alterar nossas visões de mundo, de mudar nossas vidas.

SAÚDE, POVO, LITERATURA E FILOSOFIA

Resta ainda escrever muitas outras coisas sobre literatura e filosofia. Por exemplo, terminemos, só por enquanto, até outro texto meu, com um link que nos leva a outro texto complementar e formativo: “A saúde como literatura, como escrita, consiste em inventar um povo que falta”, escreve Deleuze, derivando de uma frase de Paul Klee, num brilhante artigo (“A literatura e a vida”) cheio de insights e referências literárias e filosóficas preciosas que desenvolvem coisas que escrevi neste texto, e que merece ser lido e relido diretamente, ao invés de qualquer interrupção ou comentário meu: http://www.rogerioa.com/resources/Opt_Lit/Deleuze—Literatura.pdf

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