Comentário burro e infeliz: “Filosofia não é ciência e está fadada a desaparecer”

https://www1.folha.uol.com.br/amp/ilustrissima/2018/06/filosofia-nao-e-ciencia-e-esta-fadada-a-desaparecer-afirma-pesquisador.shtml

Ontem, ao abrir meu navegador do celular, me deparei com uma lista de notícias que incluía esta entrevista da Folha com um tal de Antonio Coutinho, imunologista português, que me deixou completamente incomodado.

Eu não ia comentar isto, todo desprezo é pouco. Respeito o sujeito, pode ser uma figura considerada em seu instituto e em Portugal e na sua área, mas tal declaração deficiente me incomodou e indignou profundamente, enquanto filósofo e professor de filosofia, fazendo com que eu escrevesse esta contrargumentação violenta em favor de algo pelo qual me sinto cada vez mais apaixonado, que é a Filosofia, cada vez mais viva em mim. Nem me dei o trabalho de ler o resto da entrevista.

Tal opinião burra só pode partir de um, não, não necessariamente de um português, mas de um sujeito institucional bitolado! Com tanta idade e não aprendeu nada! Sinto dizer, mas estás desinformado! Tua opinião apenas demonstra desconhecimento do que é fazer filosofia, demonstra preconceito e achismo típico do senso comum! Já contatei a ombudsman da Folha e o editorial da Ilustríssima para escrever uma resposta no próprio jornal. Estou até mesmo procurando teu e-mail para enviar este texto!

Há um senso comum clássico – que envolve o nascimento mesmo da filosofia, desde a Grécia antiga, basta lembrarmos do diálogo Teeteto, de Platão, sobre Tales de Mileto, justamente aquele que é considerado o primeiro filósofo – que acha que Filosofia é “ficar nas nuvens”, pensando de maneira abstrata e infecunda, descolado da realidade como o pensador de Rodin, desconsiderando o quanto ela nos é concreta, viva, imanente, transformadora e presente, desconsiderando que a realidade também abrange o pensador; há outro senso comum, um pouco mais intelectualizado, que acha que a ciência nasceu da filosofia (segundo certos historiadores, isso está correto) e/ou que a filosofia é uma ciência, e que aquela a passou, tornando a segunda fraca ou inútil ao longo da história e diante das demandas do homem e do mundo moderno (como se tudo isso não fizesse parte de vários conceitos justamente filosóficos)…

Primeiro, é óbvio que a filosofia não é ciência, assim como a ciência não é filosofia. Pensei que ninguém mais discustisse essas asneiras! A primeira lida com problemas e conceitos, a segunda lida com funções (vide “O que é Filosofia”, livro de Deleuze e Guattari). Comparação infeliz, porque não há tal substituição de uma área pela outra: ambas têm seu próprio segmento semiótico, seu próprio processo semiótico, sua própria estrutura semiótica, suas respectivas consequências, necessidades e efeitos.

Isso é tão óbvio que faz declarações como aquela serem completamente idiotas!

Assim, nenhum filósofo quer ocupar o lugar de biólogos, médicos, físicos, matemáticos, etc. e estes também não são necessariamente tomados pela filosofia, ainda que – E ESTE É UM DOS PONTOS CRUCIAIS DA IMPORTÂNCIA DA FILOSOFIA E DO SEU CARÁTER PERENE – todo cientista precise lidar ao menos com a lógica, portanto, sem uma boa dose de filosofia não há qualquer ciência.

Isso também é tão óbvio que faz declarações como aquela serem completamente idiotas!

Como diz Deleuze no Abecedário, enquanto houver problemas a serem constituídos e conceitos a serem criados, a Filosofia vai existir. Seu terreno está preservado, porque não precisa do método científico, atua em outros níveis e com outros métodos próprios, ainda que possa se servir das áreas exatas: por exemplo, Pitágoras, Descartes, Leibniz, Pascal, a lista é imensa, muitos foram filósofos e matemáticos, ou seja, lidaram com essas duas áreas tão autônomas e as complementaram, foram atravessados pelos conceitos e pelas funções. Dessa forma, tenho algum conhecimento limitado de física quântica, com suas questões de tempo e espaço, de matemática, de neurologia, de biologia (a questão dos instintos, que se encontra em Darwin, Nietzche, Freud) etc. que me servem para a filosofia; meu estudo precário do pensamento matemático tem me servido justamente para resgatar o caráter concreto da filosofia, por meio de problemas: por exemplo, o triângulo de Pascal, trabalhado por Leibniz, é fascinante para se lidar com o conceito (aparentemente tão complexo) de infinito, no qual a ciência se detém, mas a filosofia penetra… Não raro, a ciência está retroalimentando a filosofia e vice versa – a neurologia é prova factual disso, como, por exemplo, nos estudos sobre noções de tempo, intervalo, percepção, sistema nervoso e reação motora. Mas, como toda ciência, só vai até certo ponto, até o ponto em que as funções permitem ir, num limite semiológico; a filosofia perpassa, tomada pela problematização, por questionamentos e perguntas constantes além da ciência, pela criação de conceitos.

Ninguém duvida do papel e importância da ciência – estranho duvidar do papel e importância da filosofia.

Mesmo o aparecimento da psicologia e da psicanálise e da psiquiatria, tidas muitas vezes como uma espécie de “nova ciência”, das chamadas “filosofia da mente”, não fizeram a filosofia desaparecer – ao contrário, foi ela que reconfigurou a psicanálise e a psicologia recentemente, nos anos 70 e 80: O Anti-Édipo, Mil Platôs, livros que começam a ser melhor assimilados, que tornaram-se obrigatórios e que têm encontrado um interesse gigantesco neste século entre leigos e pessoas daquelas áreas… Onde, aliás, até a sociologia tem coisas a aprender, e até os etnólogos, que precisam ler Nietzsche e os nietzschianos. E a ciência política, com todas suas análises institucionais, de poder e de política, não supera a potência desses termos em forma de conceitos inovadores e recodificações absolutas num Nietzsche ou num Foucault. A ciência não fez a religião desaparecer; a religião não fez a filosofia desaparecer, e por isso tivemos Giordano Bruno e Espinosa. O direito, a jurisprudência, para não falar da arte e de todas as outras áreas humanas, tudo está imbuído de Filosofia, tudo pode ser abarcado por ela.

Por que isso? Tantos outros exemplos infindáveis, que eu não quero me alongar… Porque a filosofia tem tanta força e abrangência ao infinito que é capaz de dar uma volta de 180 graus e além em qualquer área, subvertê-la, criticá-la, reconfigurá-la, significá-la, ressignificá-la, ser alimentada por ela. Eis a potência pura do pensamento humano! Então, além de ser um gênero próprio, além de constituir problemas e criar conceitos de forma particular, a Filosofia atua no terreno da potência infinita do pensamento e da ação.

Só para se ter uma ideia, vale um dado histórico contemporâneo que, infelizmente, terei que resumir e esmiuçar melhor noutro texto outra hora: neste momento, no Brasil (mas talvez seja uma emergência global ou ocidental) se estabelecem transmutações sem precedentes de valores, conceitos e condutas filosóficas inéditas e práticas sendo debatidas e escritas e vividas, na área da sexualidade e do corpo, sobre “lugar de fala”, gênero, repensares e reconfigurações do que é poder e política, etnia, virtualidade, contrargumentações de sistemas antigos, “estéticas”, resistências, etc. Afirmo que a Filosofia está florida, instigante como sempre, apesar de toda tentativa estatal e corporativista de desmantelamento da filosofia e do seu ensino, mas, mesmo em épocas mornas, todo o seu legado e passado servem o presente e traçam horizontes.

Portanto, esse cientificismo insolente e desinformado, que eu julgava ultrapassado, morto na primeira metade do século passado, com todo seu suposto progresso – desmistificado e frustrado por duas grandes guerras e outros descalabros e consequências científicas trágicas em proporções globais -, e mesmo em alguns pensamentos absurdos da primeira metade do século 19, como, por exemplo, em Hegel (ele chegou até mesmo a afirmar que a arte tinha morrido, porque a ciência teria chegado ao ápice do espírito e pensar humano – “begriff” -, não sendo a arte mais necessária), este cientificismo meramente técnico, pragmático, tecnocrata, tal como tem se apresentado neste nosso século, preconizando de forma absoluta e tosca o que seria “funcional”, tomando conta de muitos espaços acadêmicos e atrelado muitas vezes a processos puramente mercadológicos, mercantilistas, aliado a este cânone ocidental da “descoberta científica” sobre todo e qualquer outro processo humano criativo, legítimo e importante, malgrado todos os benefícios que as pesquisas científicas e tecnológicas nos trazem, é justamente um dos grandes motivos pelos quais a Filosofia resiste e existe e continua, num nível outro, crítico, potente e criativo ao infinito enquanto gênero do pensamento e mesmo da ação, como conduta de vida, posicionamento social e existencial crítico, formativo, construtivista, intelectual, humanista, vital, etc. etc. etc.

Comments

  • Prezado Fernando,

    Nunca o “só sei que nada sei” de Sócrates (?) coube tanto em uma pessoa como em mim. Claro que meus limites gritam. Mas eu que ando destrinçando coisas na internet nunca me deparei com vídeos, textos, – sei lá mais o quê – seus, o que considero uma grande perda. Tive a sorte de, neste início de tarde de sábado, ouvindo (ou rezando?) Estrada do Sol com Gal Costa, depois Elis Regina, com Casa no Campo, chego a um vídeo em que você interpreta um poema muito bonito de Samuel Beckett, que não conhecia (mais algo que atesta o tamanho da minha ignorância). Daí para os seus textos foi um pulo. O primeiro “o comentário burro e infeliz”, depois outros.
    A respeito do descabimento da postura do articulista, invoco o título de um documentário sobre as irmãs de Campina Grande: “A pessoa é para o que nasce”. Há os que nascem para iluminar como é o seu caso. Iluminar com textos e interpretações extraordinárias que colaboram com nossa sede de completude; sensibilidade para dedicar-se à Filosofia com a curiosidade e cuidado de garimpeiro em mina de diamante; nascer com este dom para as palavras e seus entrelaçamentos, a ponto de escrever textos com urdidura tão cuidadosa, que nos fazem ler com contrição de quem reza.
    Mas há também outros que cometem o despautério de dizer que não veem razão de Literatura e Filosofia na grade curricular de um curso.
    Descobrir seu trabalho foi um achado recebido com um bendito espanto de olhos e de alma.
    Parabéns!
    Esechias

    Esechias Araújo Lima 9 de junho de 2018
    • Só vi seu comentário agora. Me enche de alegria e motivação.
      Obrigado! Seguimos…

      Fernando Graça 4 de julho de 2018

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