Relendo Nietzche: Os estados não-artísticos (Fisiologia da Arte, Vontade de Potência)

Relendo Nietzsche:

“Os estados não-artísticos: a objetividade, a neutralidade. O “querer” empobrecido; perda de capital.

“Os estados não-artísticos: depressão, empobrecimento, esgotamento – a vontade de nada (o cristão, o budista, o niilista). O corpo enfraquecido.

“Os estados não-artísticos: a idiossincrasia moral. O temor que inspiram aos fracos os sentidos, a potência, a embriaguez (instinto dos vencidos da vida).”

(Vontade de Potência, livro II, Cap. VI, 434)

Obs. 1: O budismo é assimilado pela Europa na metade e final do século 19 de forma mais ou menos precária; visto como um desencanto total, cuja única salvação seria o aniquilamento do eu: esta foi a leitura, por exemplo, de Schopenhauer, que Nietzsche leu. Mas o corpo budista me parece muito mais pleno e potente do que o corpo cristão ou niilista, citados por Nietzsche como estados não-artísticos, porque a supressão de desejos, no budismo, aponta para estados de iluminação, satoris, insights e até mesmo para o Nirvana (que, embora possa ser visto como mera transcendência, idealização, tanto quanto a noção de “paraíso”, tem um quê de imanência: e quem aí nunca ouviu o dizer “Samsara é nirvana”, do mestre zen Dogen?)… Portanto, há, inegavelmente, uma fisiologia ativa e positiva no corpo e na mente budistas, por onde se passam grandes vivências e experiências imanentes oriundas das práticas meditativas… No entanto, o Caminho do Meio budista não ajudaria: seria a “neutralidade” e o “querer empobrecido” citados por Nietzsche ao pensar numa fisiologia da arte… O que atraiu Schopenhauer — e incomodou Nietzsche — foi a procura constante da cessação de desejos, a negação dos desejos, que há na prática budista (vontade de nada), como há no niilismo o nada de vontade depressivo, e como no cristianismo há uma preconização das fraquezas, do fraco, e das paixões baixas e sofredoras, impotentes, onde o desejo é tantas vezes deslocado, perseguido, demonizado…

Obs. 2: É fascinante, até mesmo sem precedentes a filosofia de Nietzsche, em muitos sentidos que já foram fartamente anotados por diversos estudiosos e filósofos ao longo das décadas, e o trecho acima (este capítulo inteiro) é um deles: uma estética vista a partir do corpo e da fisiologia da arte! Autor da imanência e da potência! Fascinante!

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