Sobre o verbo Ser, que não existe no japonês, nem no hebraico, nem no tupi, nem no árabe

nos últimos meses de 2015, soube de algo que mudou para sempre meu posicionamento existencial no mundo: o verbo Ser não existe no tupi nem no hebraico nem no japonês, e no russo e no árabe ele é sempre oculto

pode parecer uma descoberta besta, mas acontece que a linguagem não está morta no dicionário: ela é viva em nosso cotidiano, em nossos atos e em nossa alma, a forjar nosso caráter individual e nossa cultura coletiva

sem o verbo Ser se modifica nossa percepção habitual do Eu e se destrói a lógica grega e hebraica de predicado + sujeito + objeto (cuja sentença verbal no português é sujeito + predicado + objeto), que usamos praticamente em todas nossas frases e que é a essência dedutiva da filosofia grega antiga

logo, sem o verbo Ser não há a Angústia, que sempre norteia a vida de todos nós, ocidentais, e que faz parte do mundo de praticamente todos os grandes escritores, filósofos e artistas do Ocidente

sem o verbo Ser não há Shakespeare, Heidegger ou Kierkegaard e praticamente todos os outros que pensarmos ou, pelo menos, sem o verbo Ser encontraríamos a solução de todos os problemas que eles nos deixaram

sim, a Angústia é um sentimento cultural, não natural

os idiomas herdados da linguística greco latina – e nisso está nosso português, portanto nós todos – são escravizados por essa regra

noutras palavras, ainda não superamos o modo Platão e Aristóteles de agir e pensar: um verdadeiro absurdo alienativo que remonta séculos e mais séculos!

no entanto, sem o verbo Ser e sem a lógica de sujeito + predicado + objeto, não haveria toda essa bruta revolução psicológica, ontológica, filosófica e inclusive técnica, artística, espiritual do Ocidente, que nos difere tanto do Oriente e também dos povos indígenas (e mesmo das crianças!) mais próximos

o que haveria então? provavelmente um sentimento fraterno de união irremediável – destruição de todas as paredes que nos separam – sentimento além da matéria – o ser-não-sendo desapegando-se da individualidade e esmagado pela totalidade de tudo e todos – imensidão divina oriental – dança inevitável de todas as coisas – Gestalt

P.S.: Não sou nenhum tolo. Sei, por exemplo, que Japão e Rússia sempre estão no topo de países com altos índices de suicídio. Sei que o Oriente nunca esteve livre da violência e das grandes questões humanas. Sei também que a Índia, o que tem de sabedoria tem de desajuste social. Meu interesse, no entanto, foi justamente investigar, de modo muito superficial, é verdade, essa milenar tradição filosófica e mística do Oriente – cada vez mais afogada pelo consumismo, pelo sistema capitalista – que se deixa contemplar pela Natureza, que não se encontra apenas na meditação, na ioga e afins, mas também no modo de se expressar, de pensar, através da língua, como nas poesias antigas da China, nos haikais, enfim, em todo o modo do oriental agir e pensar diferentemente dos ocidentais.

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