Repertório de obviedades e redundâncias

Os textos desse blog não são textos puros. São pensamentos transmutados em falas ditas em voz alta que se transmutam em palavras escritas. Obs.: a foto ao lado foi tirada meses atrás no MASP pelo Flávio Viegas Amoreira.

Escrito por Fernando Graça. 2 dez, 2015 às 02:32. Foto: Flavio Viegas Amoreira.

Escrito por Fernando Graça. 2 dez, 2015 às 02:32. Foto: Flavio Viegas Amoreira.


O mundo não nasceu ontem, mas para a maior parte das pessoas ele ainda engatinha. O que me decepciona é quando dentre essas pessoas estão os artistas – aqueles que, idealmente, deveriam destoar, destruir, acabar, com nosso repertório de obviedades e redundâncias (termo que repito à exaustão, utilizado também a respeito de pessoinhas, amores, relações, acontecimentos, e não somente de obras).

Porém, de forma atroz, não é isso que acontece. Os artistas que conheço hoje ainda vivem no século XIX: no caso das Letras, principalmente. Os escritores de hoje ainda escrevem romance e conto. Alguém avise para eles que não existe mais conto: tudo o que resta é um reconto…e isso é muito pouco. Romance? Coisa do século XIX. Reivindico uma prosa que tenha pretensão de ser do século XXI, uma prosa do aqui agora, uma prosa que tenha a pretensão de inovar, experimentar, exercitar-se, questionar-se, refazer-se, uma prosa que não ignora, de jeito nenhum, James Joyce, Samuel Beckett, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Hilda Hilst.

Alguém avise que eles estão atrasados e que Oswald de Andrade, morto há 60 anos, ainda está anos-luz à frente deles. Alguém avise que, no fazer literário, não se pode ignorar a materialidade da linguagem defendida tantas vezes por Haroldo de Campos.

É preciso partir desses e de outros nomes para seguir em frente, caso contrário está se andando de marcha-ré. E não falo apenas de Literatura, mas de todas as artes em geral.

Trata-se, na verdade, de um problema de economia. Por que perder o tempo e esforço experimentando algo que já saquei por outras vias (muito melhores, por sinal)?

Se fosse, ao menos, uma retomada de algum valor anterior, mas não é isso que está em jogo: eles não sabem nem ao menos o que há no meio do caminho, como é que podem retomar? Trata-se mesmo de um problema de educação, repertório e formação pessoal.

Quando me deparo com um texto assim, óbvio e redundante, tudo o que me resta é lê-lo na diagonal para extrair certo resquício substancioso. Décio Pignatari fazia isso. E quando a forma é ruim ou clichê demais, nem para isto serve: é o caso do “Não li e não gostei” do Oswald. Como dizia Valéry: “Ler é eleger.”

O mesmo procedimento serve para qualquer outra arte. Não se trata de esnobismo intelectual: se trata de repertório. Noutras palavras, o que é que pode realmente acender o fogo do meu coração depois de tanta brasa e pancada que ele já levou?

Outro dia, numa entrevista-vídeo disponível no meu canal no Youtube, disse a um amigo que existem dois tipos de arte: a arte morta e a arte viva. A morta é aquela que é ressuscitada constantemente para fins comerciais com o objetivo de preencher ou ser consumida por esses repertórios médios (ie. medíocres) que a sociedade pede (para esses não há diálogo nem discussão). Na pior das hipóteses, a arte morta é produzida pela boa vontade de artistas que também tem um repertório de nível menor (para esses ainda há salvação). Deve haver, ainda, uma terceira categoria: pessoas que, amedrontadas, resguardam a todo custo seu repertoriozinho, com medo de se castrarem, e continuam produzindo sua obra espontaneamente…

São, de forma resumida, modelos e padrões antiquados que soam chatos para quem já se abasteceu deles. Quem assistiu muito filme brasileiro atual (que ainda está apegado à linguagem televisiva) e se esqueceu do cinema brasileiro dos anos 60, ou quem assiste muito filme americano em geral, sente algo diferente quando se depara com um 8½ do Frederico Fellini. Ou ainda: quem se acostumou com a melodiosa bossa nova e com as grandes e belas baladas de jazz, torce o nariz quando ouve um John Coltrane tocando free jazz. Quem aprendeu a gostar e admirar apenas Da Vinci, suspeitará de Pollock, Mondrian, Rothko.

Por que? Porque são obras que não contribuem com nosso repertório de obviedades e redundâncias! Obras que estão acima ou abaixo do nosso repertório atual. Obras que exigem um enriquecimento, algo novo entrando na mente.

É aí que entra a outra arte, a arte que está viva. Neste século XXI, é, por mais paradoxal que possa parecer, aquela que caminha por escombros, despojos, estilhaços, cemitérios. É perlaboração (termo que Freud chamava de Durcharbeiten) ou, caso preferir, é o fragmento de T. S. Eliot ou, ainda, as ruínas de Walter Benjamin.

Quando muito, usa-se termos vazios como “pós-modernismo”. Fernando Pessoa detestava que falassem de “Modernismo”, porque ele sabia muito bem que tudo pode ser moderno, em qualquer tempo, espaço e lugar (Da Vinci era moderno em sua época, não?), portanto é vazio e sem sentido.

Não sou eu quem estou pondo regras: são décadas de experimentações, exercícios, vanguardas, que atingiram seu clímax no século XX, totalmente ignoradas pelos artistas da minha geração. Se ao menos houvesse uma decantação do tipo: Vi, li, soube disso tudo, fui fundo, e agora estou jogando no lixo por causa disso…disso…e disso… Mas também não é o caso.

A formação, a educação, tem sua parcela de culpa. Minha geração é burra porque ninguém lhes ensinou devidamente as coisas. Por exemplo, para ficar tão somente no caso da Literatura: os estudos tradicionais, mesmo de ensino superior, começam no Romantismo (que no Brasil se iniciou tardiamente) e terminam no Modernismo, como se não houvesse nada depois disso…

Outra crítica: os concursos literários do Brasil são pequenos, retrógrados, incentivam essa mentalidade que parou séculos atrás, de ainda escrever livros medianos, recontos medíocres, ressuscitando os mesmos padrões e modelos poéticos e literários…

Uma vergonha.

(Acho que olhei fundo demais para dentro do abismo, não só artístico em âmbito histórico, mas também em relação à futilidade e inutilidade da vida. A inutilidade de nascer, que Drummond escreveu em seu último poema. Na ruptura da infância para a adolescência, enfiei minha cara nos livros e só desenfiei anos depois, e eu já não era mais o mesmo. Esses dois elementos – erudição constante e consciência brutal – me espancaram demais. Seria melhor ter ficado em Santos, entrado em um curso técnico e ter ido trabalhar no porto. Na verdade não seria melhor, não; da deformação criou-se um outro ser, muito mais maduro, apaixonado, seletivo, interessante e criativo. Nada me castra, nem mesmo os concretistas. Ao contrário, há uma busca pela inovação que é excitante; todo dia encontro um ângulo novo num caco deixado pelo século XX.)

Escrito por FERNANDO GRAÇA em 18 de nov, 2015

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