Goethe e por que hoje a literatura é mais importante do que nunca: Reivindicação de Kairós

Se tem algo que meu falecido pai – esta figura que tanto me inspira – deixou de ensinamento é aproveitar o momento sem pressa, mas não no clichê cretino Carpe diem (vindo de Horácio na época decadente do Império Romano), e sim no aproveitamento de quem tem história (“Eu vivi!” era um dos últimos e orgulhosos bordões de meu pai.) Carpe diem é cretino para quem não tem história nem passado e busca esgotar seu momento presente de forma apressada, desesperada. Escrito isso, vamos ao meu texto defeituoso e caótico:

Escrito por Fernando Graça. 2 dez, 2015 às 02:24.

Escrito por Fernando Graça. 2 dez, 2015 às 02:24.

Vivemos em um mundo mefistofélico no sentido goethiano. Como bem explica Michael Jaeger (2007), o Mefistófeles da opera della vita de J. W. von Goethe, o Fausto, representa a recusa do aqui agora, a busca incessante pelo depois, o ato de não se deter no momento. Fausto, inclusive, usa justamente esses termos na sua aposta com Mefisto: diz que o diabo só pode vir buscá-lo quando finalmente ele, homem incessante e inquieto, disser: “Oh! Pára enfim (momento) – és tão formoso!” (trad. de Jenny Klabin Segall).

O que isso nos diz respeito? Em tempos de mídias mirabolantes, seriados/filmes/livros com não sei quantas temporadas (outro dia disse a um amigo: uma série ou um filme que tem 10 edições, na verdade não teve nenhuma), aplicativos de “relacionamento” com miríade de almas das quais na realidade não nos relacionamos, cinema com cenas e cortes cada vez mais ligeiros (algo que o saudoso crítico baiano André Setaro chamava de “estética do açougue”), televisão em ritmo frenético, e principalmente em tempos de Faustobook e informações várias-diárias que nos gladiam a todo momento, Literatura é respiro, é aprofundamento, é convergência daquilo que o homem de nosso tempo aprendeu a fugir a todo custo: DETENÇÃO e SOLIDÃO.

(O primeiro Poeta não se conformou com o Sol que vai e volta, nem com a Lua que some para depois desaparecer, assim ad infinitum, e quis congelar Sol e Lua em seu poema.)

A noção de tempos líquidos, tão bem tratada por Zygmunt Bauman, encontra aqui as suas justificações. Assim também, o historiador Leandro Karnal, numa de suas percucientes palestras no CPLF Cultura – Café Filosófico, diz que Hamlet destoa de todos nós porque ele tem “consciência brutal” que o impediria de postar fotos a todo momento no Faustobook…

O próprio Fausto goethiano é um tremendo desafio de se ler hoje – seja a parte I ou a parte II – pois estamos acostumados com obras cada vez mais fragmentadas em tempo e durabilidade. Algo que Jean Luc Godard sabia muito bem: em seu filme Para Sempre Mozart (1996), as sequências finais mostram a audiência num concerto dizendo comentários cretinos como: “Mozart tem notas demais…”

Não obstante, estamos também acostumados a ler a monografia, o resumo, a crítica, o texto mastigado, e não a Obra em si. Recentemente passei meus olhos, atônito, por um nome de canal no Youtube no mínimo curioso e infeliz: “Literatura para preguiçosos”, em que o cara explica grandes obras de forma resumida. Típico do nosso momento atual. (Preciso revelar a preguiça que tive de abrir um daqueles vídeos? E logo me perguntei: o que seria literatura para não preguiçosos?!)

Não se trata apenas de que enjoamos facilmente do Clássico – no caso, Goethe ou Mozart – mas há um clima de preguiça quando nos deparamos com qualquer tipo de obra literária, mesmo as pós-modernas, transmodernas, e o diabo a quatro. Há homem mais moderno que Oswald de Andrade? E, no entanto, as gerações recentes devem achá-lo um chato. À luz do mundo atual, portanto, Literatura amedronta o homem médio porque impõe dois posicionamentos dos quais ele quer fugir: o aqui agora e a solidão. Por que?

Há, de fato, um problema de formação pessoal, mas quer queira ou não, a Internet impactou e tem impactado a zona ativa do cérebro de todos nós: Internet é, também, mefistófelica: os hiperlinks nos norteiam num labirinto borgeano infinito e sem portas nem saídas, onde não somos, de maneira nenhuma, estimulados a contemplar demoradamente qualquer coisa que seja. Daí o motivo de hoje corporações e pessoinhas usarem expressões vazias como “ter foco”: o que na verdade perdemos é o deter-se diante do momento.

Além disso, um último fator a ser considerado é que a maior parte das artes, e mesmo a Internet, lidam com o mundo imagético, tão interativo e encantador aos nossos olhos: lúdico. Não assim com a Literatura. Os principais livros do cânone e aqueles que criaram rupturas com o cânone não trazem necessariamente ilustrações. Tudo o que resta é a materialidade da linguagem e essa, meus caros, pode ser mais viva e inspiradora que qualquer projeto furta-cor.

P.S: Obra é aquilo que Tarkovski (quem melhor do que ele sabia sobre contemplação?) dizia a respeito do cinema: congelamento do Tempo, concretização do agora (para ele, cinema era, ainda, esculpir o Tempo, por causa da montagem – mas o resultado final de um filme o coloca ao lado de qualquer outra obra artística que também exigiu esculpimento). Portanto, próximo de minha cama estão meus principais autores, aqueles que exigem atenção, aqueles que, por conta de suas ânsias pela Obra, me afastam do demoníaco Mefistófeles: Hilda Hilst e sua prosa letárgica, saxofonística, torrencial, que, a primeiro momento, pode parecer um vertiginoso vômito líquido, mas na realidade exige constante releituras plenas; as Metamorfoses de Ovídio, obra de fôlego, Bíblia pagã que tanto inspirou a Idade Média e o Renascimento; contos de Voltaire, que são filosóficos, portanto perenes – tal qual os contos de Borges, que aqui também estão; poemas de Drummond e Lorca que, como toda boa Poesia, são epifânicos e destoam do pensamento raso, lógico; transcriações de Haroldo de Campos, incluindo a do Eclesiastes: TUDO NÉVOA-NADAS/ Vaidade das vaidades, tudo vaidade; exercícios experimentais na prosa de Décio Pignatari; as tragédias de Shakespere (incluindo um Hamlet traduzido sem concessões por Péricles Eugênio da Silva Ramos, que se levado ao palco fielmente pode durar mais de quatro horas), e os dois Faustos de Goethe.

Obs. final: Kairós, como se sabe, não representa durabilidade, mas qualidade. Às vezes um segundo carrega consigo uma eternidade inteira. Às vezes uma nota é mais eficaz que toda uma sinfonia. Um tiro basta para matar o sujeito.

BIBLIOGRAFIA

Michael Jaeger, “A aposta de Fausto e o processo da Modernidade: figurações da sociedade e da metrópole contemporâneas na tragédia de Goethe”. Estud. av. vol.21 no.59 São Paulo Jan./Apr. 2007. Disponível na íntegra em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-40142007000100025&script=sci_arttext

Escrito por Fernando Graça em 15 nov, 2015.

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