Sobre acaso, fluxo de consciência, espontaniedade e criação da Obra

Fernando Graça diante do branco do papel. Autorretrato, 2016.

Fernando Graça diante do branco do papel. Autorretrato, 2016.

Hilda Hilst, que tem uma prosa torrencial, solística, disse em 1987 para Caio Fernando Abreu: “Qualquer cretino pode ser espontâneo. Então eu acho que a literatura vem desse conflito entre a ordem que você quer e a desordem que você tem.”

Teria o Acaso construído galáxias, planetas, constelações, o verde das folhas, o miado dos meus gatos? E tudo isso constitui obra de arte? De maneira formal e direta, não. O que constitui obra de arte senão a expressão humana?

Essas conclusões preliminares nos levam a crer que trabalhar sob o aspecto do fluxo de consciência é um recurso poderoso, mas principalmente quando, depois da obra posta, você puder tomar determinado distanciamento e retificar os pontos necessários.

Isso porque o deus Acaso, embora atraia nosso inconsciente coletivo + repertório pessoal + emoções + erudição aprendida, não produz, por si mesmo, Arte, que só nasce ou começa a nascer com a intervenção do artista.

Que é o artista senão uma espécie de demiurgo? Um homem que se distancia dos demais pela criação e intervenção mesmas das quais ele se impõe constantemente?

(O objetivo não é propriamente buscar a perfeição, que é muito relativa, e até poderia esbarrar noutras questões do tipo: Se o homem busca perfeição através de sua intervenção na obra de arte, as obras do acaso, incluindo todo o mundo externo, natural, universal, são perfeitas/imperfeitas?)

Vômito é obra de arte? Para essa tenho uma resposta pessoal: Não, mas pode vir a ser, através das mãos do artista. Não simplesmente colocando o vômito dentro de uma bienal, museu, instituição que o atribua valor artístico, mas que as mãos do artista criem e configurem novos elementos para que aquele vômito tenha sua autonomia artística em qualquer canto do mundo: um quadro do Pollock continua sendo arte na esquina ou no museu; um poema do Drummond continua sendo arte na esquina ou no museu.

Eis a maravilhosa potencialidade das coisas… Cabe dizer que essa noção de arte – a da arte que é forjada, feita através dos meios e dispositivos disponíveis; latim ars = técnica – é completamente cultural e pode variar em cada região deste pequeno globo imenso.

De qualquer forma, quando escrevo poesia ou prosa “tomado”, fluído, a obra espontânea nunca é a final. Essa é a grande conclusão. O que a faz ser obra de arte é minha intervenção, minha releitura, o uso de meu repertório direto e de outras parcelas minhas que não aquelas quando fiz ao acaso, espontaneamente.

Parece que muitos artistas de hoje trabalham de forma meramente espontânea. Nada contra, mas até mesmo Pollock fazia correções em seus quadros…

Escrito por FERNANDO GRAÇA em 18 nov, 2015.

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