O stalinismo continua impregnado na esquerda brasileira…

O stalinismo continua impregnado na esquerda brasileira. É impressionante! Subestima as classes mais baixas, subestima o “povo”.

Se você não faz uma obra ou uma arte ou um pensamento “para o povo” (isto é, para deixá-lo na mesma, na mesma condição, na mesma alienação), se você não faz consessões e não rebaixa o seu repertório (linguístico, estético, filosófico), se você “escreve difícil” (o que é muito relativo), “complexo”, “fala difícil”, quando, na verdade, nada a ver com dificuldade, você está atuando num alto ou bom repertório, enriquecedor, você logo é criticado pela patrulha, pelos julgadores, pelos inspetores, pela má consciência que não querem que este país vá pra frente, que as classes mais baixas se apropriem não só de pão, emprego e consumismo, mas sobretudo dos diferentes repertórios e espaços, construções de subjetividade e realidade, estejam à altura, sejam fodas, acima da mediocridade que lhes é imposta nacional e mundialmente, acima da psicologia e pedagogia rasteiras, empobrecedoras, deficientes que lhe são ensinadas no cotidiano, acima de toda leva de lixo previsível, redundante, óbvio de hoje em dia.

O sábio Suassuna – quem, senão ele, foi representante do “povo” na vida, na obra, no corpo? – já dizia que “só nos dão osso”, e eu completo dizendo: querem afastar a carne, desacostumar o povo brasileiro com a carne, para que ele a repudie, logo o Brasil, com arte e cultura plurais e múltiplas e semioticamente ricas, à altura do resto do mundo. Não. Eu quero a carne, não quero o que a TV, a Internet e as rádios nos empurram constantemente, quero ler os melhores livros, ver os melhores filmes, praticar e entender os melhores filósofos, quero tudo o que foi e é transformador em sua área. Quero ter brio e coragem para encarar tudo o que estiver supostamente acima do meu repertório!

Precisamos de mais Gramsci, uma revolução que seja altamente cultural! O stalinismo não prendeu, perseguiu e matou apenas uma boa parcela do povo; também matou toda a vanguarda revolucionária russa, suicidou Maiakóvski e outros poetas fantásticos e inovadores, prendeu milhares de importantes intelectuais e artistas no Gulag e afins. E que arte o stalinismo promoveu, que pensamento? Alguém aí se lembra de algum nome?! NÃO. Nada. Um vazio cultural e intelectual.

Maiakóvski (e Oswald de Andrade) diziam: “Um dia, o povo comerá do biscoito fino que eu produzo.” Eu também faço parte do povo, não estou concretamente nas classes abastadas. E eu digo que ele já come, pois o nível dos repertórios não depende – ainda mais hoje em dia, com mais acessos, brechas, disseminações! – do nível social e de classe.

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