Como “entender” filosofia? Como sentir e praticar filosofia?

Algumas pessoas andam dizendo que não entendem meus textos filosóficos. Se preparem – pois é só o começo e não sou de fazer concessões ou rebaixar meu repertório… Também não são “textões” – publicados no meu blog, compartilhados nas redes sociais, são esboços, esqueletos para meus livros.

Alguns dizem que a “minha” filosofia “muda vidas”, que a faz “ver coisas que antes estavam embaçadas, sobre o Ser, sobre a Política, sobre tudo”. Outras, comentam não entender, precisam ler e reler. Acho exagero. Pode existir uma ou outra terminologia incomum, só para familiarizados, mas… Alguma alma viva por aí?! Há um Google aberto na fenda do cosmos e dentro de nós uma bússola de direção…

Ao invés de chamar as pessoas de burras – embora, francamente, eu veja muitas por aí, sobretudo nas redes sociais, onde sou capaz de ser abordado por garotos de 16 ou 18 anos que “gostam de mim”, que “me entendem”, que querem saber “mais” e “mais”, e marmanjos acéfalos – acho que esta é a oportunidade de explicar rapidamente o que é filosofia e apresentar dois métodos de fruição dela, concluindo sobre a definição de encontro.

Não quero sair das redes sociais – quero subverter o óbvio, a mesmice, a obviedade e a redundância que há nela, de repente fazer com que caia alguma ficha, mesmo num terreno hostil a tudo o que se demora e quer se perpetuar. Por que, se as redes não foram feitas para isto? Porque pode pintar – como pinta vez ou outra – bons, belos, lindos encontros… Por quê? Porque a filosofia é capaz de ocupar todos os espaços e em todas as formas que lhe são necessárias.

Preciso também divulgar minhas coisas.

Gosto daquela frase da Clarice: “Eu me entendo… Tem gente que me entende…” E da Lygia Fagundes Telles, certamente para algum leitor: “Não quero ser entendida, quero ser amada!” E a Hilda Hilst, que, no geral, achava seus leitores boçais por a considerarem hermética: “Fico besta quando me entendem.” São escritoras de ficção – gênero no qual também transo. Uma ficção, convenhamos, com forte carga filosófica, em cada uma num grau e jeito diferente… Mas estas frases servem para qualquer área e texto, sobretudo em prosa – cujo caráter semiótico leva necessariamente a conclusões.

Deleuze, comentando sobre Espinosa (dois excepcionais filósofos), dizia que é possível ao não-filósofo ler filosofia, ainda mais por estar livre de vícios ou mesmo academicismos. Espinosa, assim, seria simples de ler – mesmo que as pessoas não consigam (no momento) se aprofundar nos seus conceitos.

Tento sempre trazer a concretude da Filosofia, afastando aquele estigma de abstração, “viajar na maionese”, que não é de hoje, não, porque acompanha a filosofia desde seu nascimento. (Lembremos de “Timão”, texto de Platão sobre aquele que é considerado o primeiro filósofo: Tales de Mileto, que, de tanto pensar ou olhar pro céu, tropeçou e caiu no poço…)

É possível ao filósofo olhar as estrelas e esquecer do resto, mas me ligo a uma filosofia da imanência, isto é, uma filosofia que se preocupa com as coisas da Terra e com os homens, que está viva entre nós. Seja dando exemplos do cotidiano, exemplos dos processos internos das coisas, exemplos do corpo ou usando a matemática. (Por exemplo, como falar do infinito, de um conceito de infinito?! Parece tão subjetivo, diáfano, abstrato, longínquo, incomensurável, impossível, inconcebível! Mas basta que eu desenhe numa lousa o triângulo de Pascal, um triângulo lindo e que passei a amar: um triângulo infinito! Eu, que sempre fui um zero à esquerda em matemática, tanto na escola quanto na vida, tive que me debruçar sobre alguns de seus signos, não todos e também não de forma aprofundada ou prolongada, para me apropriar de alguns dos seus instrumentos, para entrar nela e sair na filosofia.)

A boa Filosofia ataca, atinge, atravessa, desperta algo.

O QUE É FILOSOFIA?

a) Um gênero próprio. b) Gênero este que envolve a potência infinita do pensamento – é possível chegar a terrenos inimagináveis com a filosofia, e ela é capaz de se debruçar sobre tudo. c) Filosofia é criar conceitos, lidar com problemas. Entre uma coisa e outra – a conceituação de conceitos e o lidar com as questões – há uma série de definições mais aprofundadas, que não cabe dizer aqui agora, porque os conceitos não são apenas visões e percepções de mundo, vão além disso. Há conceitos filosóficos capazes de levar ao suicídio ou à loucura, há conceitos capazes de tornar nossas vidas plenas. O importante é saber que, ao contrário do que a maioria acha, filosofia não é refletir, não é simplesmente pensar, meditar como o pensador de Rodin: a Filosofia é, portanto, um gênero bastante criativo, construidor, ativo, construtivista. d) A filosofia, ou pelo menos, a “minha” filosofia, não está apartada do mundo: meus vídeos provocam, abalam, estimulam, meus textos e alguns vídeos “mudam vidas”…

ENTENDER, ANALISAR, INTERPRETAR OU SE DEIXAR ATRAVESSAR?

Há dois métodos básicos quando estamos diante de qualquer signo, de qualquer coisa, seja uma pintura, um livro, até mesmo de uma pessoa:

1. A clássica dedução dos gregos antigos / a interpretação psicanalítica – Não sei bem por quais motivos linguísticos, mas a própria língua grega, com seus predicados e etc. acabou legando uma tecnicidade em praticamente todas as línguas ocidentais, e houve toda a disseminação do latim, de modo que nossas línguas nos induzem o tempo todo a querer entender o significado e sentido das coisas: “O que esse autor quis dizer?! O que você quer dizer com isso? O que ele quer dizer? O que isso significa?” A pergunta-chave que possivelmente gerou a filosofia ocidental foi: “O que é?” Daí surgiram todos os seus infinitos correlatos: “O que é ser?” “O que é natural?” “O que sou eu?” “O que é isso?” “O que é filosofia?” etc. Estamos o tempo todo fazendo isso, tentando decodificar ou recodificar os signos e tudo. Esta mentalidade possui um embrião com o método psicanalítico de analisar e interpretar tudo, um filme, um paciente, uma loucura, etc. etc. etc. (Se eu repetir – como sempre repito em meus textos – que o verbo ser (“é”) é uma construção, que o sujeito é oculto no russo, no árabe e em outras línguas, que não existe no tupi, no hebraico, nem no japonês e em outras línguas, este vício cai por terra, desaba.)

2. Método mais interessante, que pode ser profundo ou superficial, dependendo da pessoa: é o método, ou melhor, o processo, a experiência, de sentir se aquilo serve pra você e como serve, que modo de vida você levará com aquilo, que modo de vida não levará, qual é o efeito e o grau e medida do efeito prático da coisa: se produz um efeito de um conta-gotas ou de uma Foz do Iguaçu, se clareia ou embaça, se atiça, inspira, estimula, ou contêm, aprisiona. Se tem o efeito de uma bomba, de um cano que estoura, como aquilo te atravessa, se você se permite ser atravessado, e como você atravessa aquilo. Aqui, o corpo, com suas impressões, sensações e emoções, não pode ser deixado de lado, está presente o tempo todo e unido numa espécie de “filosofia física”. Há conceitos filosóficos que deixam ver melhor, que me impulsionam a tomar uma decisão sem volta, que me fazem saltitar pela madrugada como Arquimedes dizendo: “Eureka!”

Portanto, temos, de um lado, o cerebralismo, a tentativa de compreender, a interpretação e, do outro, o experimento, a experiência, a sensação.

DEVIRES E ENCONTROS: O QUE É UM ENCONTRO?

Finalmente, cabe concluir falando sobre os encontros. Muitos querem me ver, me conhecer, se encontrar comigo, para fins cognitivos e sexuais ou não. Mas creio que isto é impossível, dada a forma como isto é colocado.

Não se encontra simplesmente com alguém em tal esquina, em tal casa, em tal bar etc. Esta é apenas uma forma meramente aparente… Uma pessoa que lê meus textos – meus poemas, ficção ou filosóficos – e não só se identifica como quer falar sobre o assunto, se aprofundar, que “captou”, é alguém que virtualmente, realmente já se encontrou comigo, mesmo que nunca nos cruzemos.

Já houve um encontro, isto é, a efetuacão de um devir mútuo, já se concretizou alguma confluência, convergência etc.

É tão óbvio: cada vez mais as pessoas estão “juntas”, mas tão longe, cada uma em seu mundinho particular ou olhando no celular…mesmo conversando, ou olho no olho, não quer dizer que ocorra um encontro – ao contrário, pode rolar um desencontro ou um mau encontro…

E é neste aspecto entre eu e o outro que pode brotar o devir – o se tornar, o virar: um personagem, uma sensação, uma fenomenologia, um conceito, onde ocorre algo muito mais potente e forte do que o simples “captar” ou “insight” ou a “ficha que cai”: você vira aquilo, torna-se aquilo, passa por aquilo, e não passa sozinho, é um terreno povoado, completo, forte, possível.

Este caráter experimental do devir é possível para cada um e para todos, de modo que é nele onde ocorrem de fato os encontros.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *