Amilcar de Castro e a vanguarda poética

No livro Esculpir o Tempo, o cineasta soviético Andrei Tarkovski – uma das minhas obsessões – escreve que as vanguardas do século XX cada vez mais demonstraram uma falta de espiritualidade no homem. Conclusão muito generalizada para quem fez um longa tão estranho como O Espelho e trabalhou com músicas eletrônicas e experimentais em vários filmes, principalmente em Stalker.

Clique na imagem para ver melhor as duas obras citadas no texto.

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É certo que o progresso e as conquistas materiais acomodaram a humanidade, que foi se tornando cada vez mais pragmática e cética, e que um forte cientificismo invadiu a arte de forma radical no século passado, mas isso não quer dizer que todos os artistas tornaram-se meramente formais. Niobe Xandó nos dá exemplos fantásticos de fusão entre arcaico e moderno em seu mecanicismo. Aliás, eu sempre enxerguei espiritualidade e transcendência em Malevich, Rothko, e em Amilcar de Castro.

É nesse último que eu queria chegar. Numa primeira vista, suas peças neoconcretas feitas de aço, sempre transmitindo peso e força, parecem não nos dizer muita coisa. São brutas. Aparentemente não há nada de poesia ali. Não há nenhum resquício, nada sobra, é aquilo e ponto final. Despojamento total. E de repente, como num toque de mágica ou de poesia, como se vê na imagem da esquerda, ele dobra uma das partes, e aquela estrutura rígida torna-se impactante e dramática, como se fosse um corpo – humano ou aeroplano – querendo voar, embora seu peso contraponha a intenção. A outra escultura que ilustra esse artigo – e que vi mês passado na Pinacoteca – também tem sua carga emocional fortíssima: além da imagética de um portal, não consigo pensar noutra coisa senão no apoio sutil de um peso derrotado que se ergue do chão ou que se abre, se fratura.

amilcar de castro

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Só alcançamos tamanha poética e transcendência com o olhar muito apurado. O entendimento de uma obra desse tipo se dá antes pelo nível sensorial do que intelectual. Ou talvez os dois atuem em conjunto. Aliás, como toda boa poesia. A boa poesia, segundo T. S. Eliot, é aquela que comunica antes de ser explicada, antes de ser entendida: Amilcar de Castro faz isso brilhantemente. Maria Heloísa Martins Dias, Profa Dra da Unesp, intitula um artigo sobre Amilcar justamente de “Escultura poética ou poema-escultura?” E, por falar em poema, ele mesmo escreveu alguns, revelando seu processo e meta enquanto artista plástico: procure, leia e seus olhos vão encará-lo de uma outra forma.

Por que quis comentar sobre uma “vanguarda poética”? Porque tudo é expressão, mas nem tudo é arte. Porque não raro vemos hoje em dia uma chamada “arte contemporânea”, em bienais e em outros espaços, destituída de sentido, vazia em si mesma, sem qualquer autonomia, sem qualquer talento. É preciso lembrar que os signos de uma obra não flutuam apenas fora dela, mas nela mesma: por isso, detesto Nuno Ramos e afins. Tom Jobim disse certa vez: mais rebelde do que montar numa moto com cabelo moicano e jaqueta tipo James Dean, é você inovar em acordes e harmonias… Eu, que adoro rock, e até mesmo algumas bandas do punk rock, vejo muitas vezes mais revolução num Turibio Santos ou num João Gilberto do que em posers pulando e gritando no palco. Até para tais coisas é necessário talento.

Voltando às artes plásticas: não se pode encarar como rebelde tampouco como revolucionária uma arte sem autonomia que depende exclusivamente da instituição para ser chamada de arte. Noutras palavras, eu me interessaria do mesmo jeito por um Pollock (sobre quem escreverei futuramente) tanto num bar como num museu, porque o estabelecimento é irrelevante e o que interessa é a obra, que, quando o assunto é arte contemporânea, muitas vezes é feita sem qualquer riqueza sugestiva e poética. Para esses artistas, Tarkovski tem toda razão.

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