QUE MERDA!

Jamais me esquecerei dos meus três encontros com um colega italiano residente de Nova Iorque — encontros que provavelmente jamais se repetirão, pois somos muito, muito diferentes –, que vinha duas vezes por ano em São Paulo trabalhar para grandes empresas. Essa história é verídica, não é ficção. Antes fosse… QUE MERDA!

Ele era muito gentil comigo, mas o que me perturbou foi o seu trabalho: uma espécie de motivador ou de coaching. Através de estratégias, buscava inspirar e motivar os funcionários de grandes empresas fincadas em bairros abastados de São Paulo. Ele me explicava a sua “técnica” de forma minuciosa — tudo em inglês, um brasileiro e um italiano se comunicando em inglês! “Eu treino eles para identificarem e evitarem as más opções e escolherem as boas, as positivas, as que dão certo.” “Tão maniqueísta”, eu respondi, “tão americano…” Ele não gostou e naquele dia discutimos. E eu só conseguia pensar o seguinte: QUE MERDA!

Inspirar os funcionários de grandes empresas?! Elas próprias o contratavam para motivar seus funcionários?! “Olha aí o próprio capitalismo pondo band-aids nas feridas que o próprio capitalismo causa nas pessoas…” Eu pensava isso caladinho. Fazia uma ou outra cara sarcástica. Sim, nada mais do que distraí-los um pouquinho de suas tristes realidades cotidianas (a rotina e o cotidiano alienam, li certa vez em Heidegger), nada mais do que uma leve manutenção do pérfido sistema para que continuem capturados e obedientes em suas funções, aprisionados em empregos, escravos do salário, perdendo tempo, desgostosos da vida. Nada mais do que escapismo. Onde é que está a poesia?! Foi para isso que viemos ao mundo?! QUE MERDA!

Enquanto escrevo isso, me pergunto: Será que essa gente têm consciência disso que eu tenho?! Ou estão alienados?! Ou o alien sou eu?! Não passa tudo isso na cabeça dessa gente?! Ou será que passa mas é melhor esquecer, porque o medo do risco, o medo do amanhã, a obrigação, as promessas de uma vida obediente, a falta de opção?!… Como se vê, não estamos numa democracia de fato, porque o financismo comanda. Será que sou mesmo uma ilha existencial, que coloquei meu barco na terceira margem do rio pra nunca mais tirar?! Será que só eu sou verdadeiramente um Homem nesse planeta?! Um Homem, isto é, alguém que compra e vende, sim, que não demoniza o dinheiro, ao contrário, que gosta do dinheiro, mas que tampouco é escravo dele, alguém sensível que pensa ativamente, que procura a sua autonomia existencial, que subverte e questiona, que se preenche de coisas imensuráveis e impagáveis, que procura viver no tempo de Kairós, não uma mera função maquinal, não um mero papel substituível, mas um Homem… QUE MERDA!

Dou um exemplo chocante que justifica minha perplexidade. Vocês vão me dar razão. Uma vez, o italiano novaiorquino me contou — com orgulho, com seriedade — sobre um funcionário que, no último encontro do curso, chorou copiosamente (consigo até mesmo ouvir os aplausos daquela sala!) ao confessar que, depois daquela experiência “fantástica”, ele agora, apesar de trabalhar praticamente o dia todo, conseguia aproveitar melhor sua filhinha quando chegava em casa. QUE MERDA DE MUNDO EU VIM PARAR! QUE SOCIEDADE DOENTIA DO CARALHO!

Juro, queria que tudo isso fosse ficção. Pensando bem, não deixa de ser: a ficção do sistema. Prato cheio para um ficcionista como eu. Não escrevo isso com raiva, caro leitor; escrevo com profunda indignação e escrevo também com profunda felicidade, a felicidade de não compactuar com esta MERDA.

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