IDEOLOGIA

Não consigo pensar, fazer, amar nem ler o mundo sem ideologia. Tenho quase uma convicção científica de que não se faz nada sem ideologia, das coisas mais banais e desprezíveis até as supostamente mais positivas e grandiosas, e mesmo em tudo o que se apresenta como signo do “neutro” – inconsciente ou conscientemente, sendo levado ou levando-me, há sempre uma grande ideia (ou uma ideia grande) por trás, ou na frente, ou no meio, ou através. Explícita, iluminada, clara, ou nas sombras, omissa, difícil de descobrir. Begriff? Conceito. A partir desta pedagogia, desta educação, desta conscientização, a ideologia não é necessariamente uma bitola: é a supra-ideia, a meta-ideia de alguma “coisa”, por onde correm múltiplas matizes em torno de um centro que precisa ser cada vez mais ativo, rico e enriquecedor. Também deve se diferenciar de um deslocado e fantasioso sonho, da insuportável esperança (esta palavra adocicada demais causa-me péssimas sensações físicas, e tanto sonho – quando perdemos o seu caráter positivo de desejo imanente e construtivista, em nós – quanto esperança podem levar a platonismos impotentes, perda do domínio da potência, da vontade, melancolias e idealizações que nos cortam do presente e da linha do acontecimento). Não consigo – repito – pensar nem ler nem amar nem criar o mundo sem uma boa ideologia: é ela que me move. Seja no mundo erótico-amoroso, artístico-estético ou no sócio-econômico.

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