Machado de Assis não era “negro” nem “afro-descendente”

A nova fotografia do Machado de Assis reacendeu, pelo menos para mim, o velho debate neste país, não apenas sobre sua descendência e cor de pele (contra o seu “branqueamento”, que ocorre também estupidamente e de forma racista com Castro Alves e outros), mas sobre a própria etnia complexa do brasileiro.

Um comentarista por aí disse: “Ele era negro.” Discordei desta simplicidade, achei equivocado. Oswald de Andrade escreveu, décadas e décadas atrás: “Como bom preto, o grande Machado o que queria era se lavar das mazelas atribuídas à sua ascendência escrava. Fazia questão de impor rígidos costumes à instituição branca que dominava.” Isto não deixa de ser verdade, mas não é tão simples assim – “negro”, “preto” -, e quero justamente explicar rapidamente meu ponto de vista que, aliás, já escrevi noutro texto deste blog, de forma mais minuciosa e cavada do que aqui.

Sim, Machado de Assis não tinha a cor de pele clara – como podemos ver na nova foto que fora descoberta (https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Machado_de_Assis_Poss%C3%ADvel_%C3%9Altima_Foto_Revista_Argentina_Caras_y_Caretas_Janeiro_de_1908.png), datada de 1908, ano de sua morte, como numa outra explícita e em ótima qualidade, de 1904, que fiz questão de colocar como imagem principal em seu verbete da Wikipédia (eu mesmo escrevi o artigo sobre ele lá, assim como vários outros sobre diferentes assuntos, há mais de 10 anos) – https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Machado_de_Assis_1904.jpg

Mesmo que sejam fotos em preto e branco, fica explícito que nosso grande escritor não tinha a cor de pele clara. Porém, Machado era filho de portuguesa branca de Açores, com um pai às vezes nomeado pelos livros como “mulato”, às vezes “negro”. Sempre usei o termo “mulato” tranquilamente, e diria que Machado era mulato, mas duas pessoas diferentes me advertiram que “mulato” lembra “mula” e é pejorativo. Nunca tinha pensado nisto, mas respeitei.

No entanto, tampouco era negro negro – nem você, que se diz negro negro, que se acha negro negro, é negro negro, sendo brasileiro. Já é um novo gênero, o gênero brasileiro, mestiço, miscigenado, fruto de branco com negro (no mínimo!) e de várias outras etnias imigrantes possíveis – este novo gênero, como diz o Michael Jackson numa entrevista, chamando-a de “people of color” (pessoas de cor), “vai do tom mais escuro que nem a sua camisa (o entrevistador estava vestindo preto) até o mais claro como a palma de minha mão.” Nunca vi ninguém explicar isto tão bem!…

Nosso grande escritor não era branco branco também e isto acho que todos concordam. Chamá-lo de “afro-descendente”, no entanto, é pedante, equivocado (visto que o imenso continente da África é Angola, Nigéria, mas também é Egito e África do Sul), e sobretudo porque ele também seria, então, por parte de mãe, euro-descendente, o que é totalmente inoportuno e burro de se dizer. Isto é massificar os conceitos. Repito: como diria Darcy Ribeiro, é um NOVO GÊNERO sem precedentes, para não falar dos índios e, depois, dos novos imigrantes que chegam em finais do século XIX e durante todo o XX, dependendo da história de cada um.

Neste país, cor de pele conta mais do que origem e outros traços étnicos como cabelo, fisionomia etc. Isto é absurdo. Qualquer pesquisa genética e árvore genealógica mostrarão que somos miscigenados. Caetano Veloso e Chico Buarque já se pronunciaram brilhantemente sobre isso em entrevistas e creio que até escreveram letras de música sobre (“quase pretos, quase brancos, pretos e mulatos, quase brancos, quase pretos…”)

Neste país, Caetano Veloso e Chico Buarque são costumeiramente vistos como brancos! E não são! São vistos assim tanto por aqueles que se dizem “negros” quanto por aqueles que se acham “brancos”, e não são! É ridículo! Apenas por terem a cor de pele “mais clara” – e há quem tenha a cor da pele mais clara que a deles, como eu, e que tampouco seja branco branco!

Até eu sou visto como branco! Só aqui! Nos Estados Unidos, com certeza eu seria, no mínimo, qualificado como “latino”. Lá, basta ter o cabelo mais encaracolado para ser logo identificado como judeu nas ruas.

Com raríssimas exceções – os descendentes diretos de europeus, por exemplo, e sempre lembrando que o processo de miscigenação na Europa já está bem acelerado -, não existem brancos brancos neste país. “Se a Xuxa não casar com o Tafarel”, disse Chico Buarque certa vez, “e não tiverem filhos, acabarão os últimos brancos no Brasil.” Esta fala provocou revolta na época.

Portanto, isto é uma mentira total, falta de uma consciência geral do próprio povo brasileiro. Tenho a cor de pele clara, mas sou totalmente miscigenado – meu pai, aliás, tinha mãe preta e pai branco, possivelmente até loiro, mas estou longe de ser “branco” – e, no entanto, aqui sou visto assim, branco.

Escreve o Mário de Andrade para o Manuel Bandeira, sobre o Macunaíma: ele não é “sem caráter” simplesmente pela má índole, mas pelo caráter ESCAPADIÇO nacional, caráter este até da própria cor de pele, pois, não sei se vocês lembram, mas neste livro o herói da nossa gente muda de cor de pele, mostrando justamente este caráter incaracterizável.

Este novo gênero precisa ser povoado no corpo, encontrado, estabelecido por cada um de nós e em comunhão, de forma até cartográfica, pois é justamente essas confusões tão brasileiras, tão nacionais que acentuam e dificultam o fato da crise de identidade, que geram a ignorância, o racismo, o preconceito de ambos os lados; falta uma educação aprofundada a respeito, uma conscientização geral.

Por ser um gênero sem precedentes, por não ter criado a sua própria identidade, por sofrer de uma bruta crise de identidade, por ser anti-binário, ou plural, múltiplo, por abarcar e abranger o binário e várias outras etnias, por ser incaracterizável e escapadiço, se torna racista, quer se branquear, não aceita ter sangue negro na veia, ou, então, trata os outros brasileiros como “brancos”, precisa ficar buscando valores externos, seja a luta dos negros contra a segregação nos Estados Unidos ou o aparthaid da África do Sul – erro histórico-social crasso, duas situações completamente diferentes do caso brasileiro, onde houve uma mistura muito mais – MUITO MAIS, MIL VEZES MAIS – acentuada de etnias entre todas as classes e hierarquias.

É isso. Por enquanto…

Comments

  • Dizem que a palavra mulato é uma derivação de mula.A mula é o cruzamento de duas espécies diferentes e que não consegue procriar,parece que é isso.Bobagem,daqui a pouco não se pode dizer mais palavra nenhuma.

    Ademar Amancio 22 de setembro de 2018
  • Não sabia que você escrevia verbetes na Wikipédia,bom saber.

    Ademar Amancio 22 de setembro de 2018

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