CAPITALISMO, ARTE E RESISTÊNCIA

1. A “arte” no capitalismo – a “arte” do produtor, não do artista, o entretenimento, o showbussiness etc. que servem ao mercado com seus interesses financeiros; filmes blockbusters, livros best-sellers, séries intermináveis, Van Gogh que morreu miserável vendendo agora bilhões, produtos e marcas que cumprem uma função e são logo descartados. “Arte” duma fisiologia cansada e cansativa, apática, alienativa, sedada e sedativa: mediocridade, o mais do mesmo, compondo a paisagem capitalista da rotina que aliena (Heidegger), do tempo cronológico de Cronos que não cria grandes espessuras, o tempo líquido de Bauman. Redundância, obviedade, superficialidade, previsibilidade são as marcas flagrantes. (Se você é artista e quer fugir disso, estude a Teoria da Informação, ruídos, signos, semiótica etc.) O que fica de perene na indignação essencial e crítica de Marx e Engels, mesmo para quem não é marxista – que o capitalismo, acima de tudo, mercantiliza a vida, os homens, as relações, tudo. Toda Arte vai de encontro à censura econômica do mercado, à mercantilização e mediocrização da vida, da arte, de tudo, vai diretamente contra o capitalismo ou se desvia dele, mesmo que se aproprie ou se utilize dos seus recursos. A “arte” capitalista não é arte; é elemento do próprio consumismo.

2. Como fazer arte numa “era capitalista”, ou melhor, neste capitalismo tardio, na axiomática capitalista, como ser artista? Não há arte que seja inspirada pelo fluxo do capital – eis a grande verdade, eis o motivo da fase crítica das artes hoje, eis o motivo do bloqueio criativo para todo grande artista (em potencial ou em atividade) vivendo hoje, junto com a) toda a carga já iconoclasta e inovadora do século XX, b) tudo o que se produziu antes e em todos os tempos, c) a censura econômica, dependendo da arte e dos seus propósitos e da situação financeira do artista, d) uma tecnologia nas mãos do mercado e, claro, dos cientistas, tecnologia essa que se avança cada vez mais e está muito acima do nível de repertório e de entendimento da maior parte dos artistas. No entanto, todo artista – na acepção mais profunda e visceral que esta palavra possa ter – precisará sempre lembrar das palavras de Rilke como um mantra: “cobrar a si mesmo, e não a vida ou a situação, a poesia”. Por exemplo, onde o capitalismo busca o funcional, ser disfuncional – isto já é resistir. O que não é comercializável nem mercantilizável, o que não está à venda, o que não tem indústria nem mercado? Nessas brechas e vácuos – muitas delas criadas ou propiciadas pelo próprio capitalismo – é onde reside toda a potência dos devires deleuzianos (minoritários ou revolucionários, por exemplo), toda potência do realizável e do subjetivo (subjetividade resistente de Foucault e Diógenes), toda potência da própria arte. Podem reparar: toda boa arte hoje, neste período histórico de axiomática do capitalismo – sobretudo a boa arte ou mesmo a grande arte -, é sempre uma negação ou um desvio ou uma subversão ou mesmo uma refutação do capitalismo, de seus princípios delirantes, de seus modelos impositivos, de suas censuras econômicas, de suas inclusões e exclusões, de suas aglutinações e cooptações, de suas barbáries e do seu banal.

3. Os três grandes atributos da resistência – a negação (dizer não), a transformação (ou transmutação) do status quo, e o escape, o desvio, a linha de fuga (não é escapismo, mas consciência e atividade; escape, desvio, linha de fuga como uma AÇÃO, mesmo violenta, como uma bomba, um drible ou como a de um cano que estoura.)

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