Sobre a noção de repertórios e gostos

Uma vez, um amigo me disse:

– Recomendei para um colega que ele começasse a criar o hábito de ler. Uns dias depois, ele vem me dizer que estava lendo a biografia da Thammy Gretchen! Você acredita?! Tudo bem que ela tem uma história de vida interessante, mas não foi com esse tipo de livro que eu falei pra ele adquirir o hábito da leitura!

Achei graça, mas, momentos antes, esse mesmo amigo me mostrara seus livros preferidos; dei uma olhada, atencioso, mas não mostrei qualquer interesse. Logo os coloquei de lado. Achei seus livros artisticamente inferiores aos livros da minha preferência. Fui esnobe, como sou de costume. Achei aquela prosa contemporânea redundante, ultrapassada, fraca demais perto de Kafka, Borges, Beckett, Hilda Hilst, e até Machado de Assis (!)… Para mim, aquela forma tradicional do conto, da novela, do romance, tinha ficado no século XIX. O conteúdo não pode ser mais importante que a forma, é preciso que haja uma dança criativa entre ambos. Quando digo forma, não falo de virtuose, mas de experimentalismo, de saber sobre tudo o que veio antes de você para não chover no molhado. Eu quase lhe disse:

– Sabe como esses livros chamariam minha atenção? Só se eu os lesse em diagonal…

Senti depois que eu repetia o juízo exigente que ele havia feito com o colega que havia comprado a biografia. Aqueles livros não me diziam nada, não me tocavam, eu sentia que eu já havia passado por aquilo e estava além. Noutras palavras, meu repertório estava acima daquilo.

REPERTÓRIO

Em suma, tudo aquilo apreendido por você durante seu tempo de vida: todos seus amores amados, todas suas amizades vividas, todos seus discos escutados, todos seus livros lidos, todos seus filmes vistos, etc. Suas preferências. Não teve uma época da sua vida que você andava com determinado tipo de gente e hoje anda com outro? Você ainda brinca com seus dinossauros da infância ou os substituiu por sua paixão pelos filmes? Você já passou por aquela sensação estranha de rever um(a) ex e pensar: “Era ESSA pessoa que eu amava?!” É mais ou menos a mesma coisa quando se trata de repertórios…

Tal exemplo, que de fato ocorreu recentemente comigo, ilustra bem essa noção moderna de repertórios, que também pode ser chamada de modelo ou padrão. Concluí depois que seu colega interagia com um baixo repertório, que meu amigo interagia com um repertório mais ou menos médio, e que eu interagia com um alto repertório. Querendo ou não, existem esses níveis. Dentro do cânone tradicional, existe um repertório baixo, um repertório médio e um alto repertório, mediante perceber que, seja qual for o nível, o importante é sempre oferecer o melhor para o público.

ELITISMO?

Os críticos desse tipo de pensamento falariam em elitismo, mas essa é uma visão sociologóide equivocada que não leva a lugar nenhum, porque os livros do meu amigo também não são para as massas. Entendeu agora?! Não se pode falar em elitismo generalizando os conceitos, porque não é o fator social que conta, e agora elenco meus argumentos: 1) vários meninos da favela tocam música clássica ou dançam balé, principalmente aqueles que participam de orquestras e grupos sócio-educativos, 2) vários ricos, ou de classe média, gostam de funk, 3) não há empresário bilionário do campo que, ao lado do seu peão, não se derreta ao escutar uma música sertaneja que nos pareça cafona ou menor, pois foi com ela que eles cresceram (daí a questão ser de formação e não de elitismo), 4) um boia fria que veio comentar coisas aqui no blog diz que é um metido a intelectual, porque lê mais que seus patrões e gosta de Elis Regina e Guimarães Rosa, 5) os negros inventaram o jazz pelos guetos e periferias dos Estados Unidos, e hoje é visto como música chique dos brancos – isso sim é elitismo! 6) um professor intelectual é capaz de se apaixonar por uma ninfeta como Lolita, mesmo que isso signifique sua destruição…

Também é infundado falar em preconceito da minha parte quando digo que meu repertório é alto, pois conheço bem sobre os livros do meu amigo e por isso mesmo os rejeitei. E, por falar em preconceito, a questão de repertórios se torna ainda mais explícita quando comparamos culturas diversas: nenhum ocidental estranha o Copan (com exceção dos que tenham vivido a maior parte do tempo numa cidade afastada e sem prédios), mas nem todos nós gostamos ou, no mínimo, toleramos, uma arquitetura como a do Borobudur, porque seus signos escapam da nossa lógica aprendida, nos parece estranho e feio simplesmente porque não vemos aquela forma em nosso dia a dia. Isso sim é preconceito, isso sim é elitismo, isso sim é cultivar um repertório com um único PONTO DE REFERÊNCIA. Eu, ao contrário, estou saturado de livros como aqueles e busco oxigênio.

JUÍZOS DE VALOR E EDUCAÇÃO

Então, gostaria de mostrar-lhes fundamentos melhores sobre o juízo de valor do que estes infundados.

Existe um cânone comum – não só no mundo das artes, mas vamos nos ater a ele – no cinema, na literatura, na música, assimilado e aceito. Existe um cânone geral e um cânone particular. O particular é aquele formador, forjado pelo geral; as músicas que você cresceu ouvindo, os livros que cresceu lendo, os filmes que cresceu vendo, tudo isso formou sua cabeça e, de certa forma, aprisionou ou libertou você. Diante de algo que destoe desse cânone, que perturbe a lógica tradicional, grande parte das pessoas sente-se incomodada. Uma outra parte sente-se curiosa – para esses ainda há salvação… E uma parcela ainda menor da sociedade consegue fruir com essa arte de forma muito natural, porque seu repertório permite. Além de consciência própria, o que esses últimos tem que os outros não tem? Educação.

A palavra mágica para resolver qualquer problema de repertório vai ser sempre a Educação. Educa-se e forma-se grupos de pessoas para que elas aumentem o nível de seus repertórios, na ciência, na técnica, no conhecimento, na história, e também nas artes, oferecendo a essas pessoas novas informações e percepções. A maior parte das pessoas estranha ou desconhece a arte dita pós-moderna e pós-dramática porque as escolas, mesmo as universidades, param sempre no Modernismo, como se não tivesse acontecido mais nada depois. Um verdadeiro absurdo. Uma pessoa que cresceu a vida toda ouvindo apenas determinado tipo de música, vendo apenas determinado tipo de filme, enfim, apenas com um único referencial, dificilmente aceitará algo que lhe mostre outros horizontes, porque a tendência é ignorar aquilo que está acima do seu entendimento; isso sim é preconceito, e pode atingir desde a camada sócio-econômica mais alta da sociedade quanto a mais baixa. Um psicologismo precipitado diria também que a questão é de temperamento, que pessoas rebeldes se identificariam facilmente com obras mais radicais. Pode ser.

MUDANÇAS E REFERENCIAIS

Quantos poetas foram incompreendidos em seu tempo e só depois foram festejados? Suas obras não mudaram, foi o mundo que avançou. Quantas vezes você deixou determinada obra de lado e, anos depois, num outro momento, voltou atrás e viu nela significados maravilhosos que da vez passada não havia visto? A obra com certeza não se alterou; foi o seu repertório que mudou e cresceu. Ou diminuiu…

E então, concluí também que eu, ao contrário do meu amigo e do seu colega, não tinha um único referencial. 1) O colega dele tem apenas o referencial da biografia de uma subcelebridade, 2) meu amigo tem apenas o referencial dessa biografia e dos seus livros preferidos, 3) e eu tenho os dois juntos e muitos outros mais. Portanto, não se trata de sectarismo ou de exclusão esnobe e arrogante, mas, ao contrário, de exigência, agregação e seleção.

É sempre na riqueza abrangente que mora a altura do repertório, nunca num único referencial, por isso mesmo não se trata de elitismo, preconceito, etc.

SEMIÓTICA E TEORIA DA INFORMAÇÃO

O que faz, então, que os elementos do meu repertório sejam – objetivamente – de alto valor? Para essa difícil questão, é a Teoria da Informação que pode ajudar. Na Teoria da Informação, uma comunicação de qualidade requer o máximo no mínimo, requer o mínimo de obviedades e redundâncias, o máximo de sentido e novidade; ora, por que perder seu tempo com algo que você já sacou ou – na pior das hipóteses – pode sacar por outras obras?! Lembre-se sempre de perguntar isso diante de qualquer arte. É claro que meu amigo se identificou com o conteúdo emocional do livro, e ele mesmo confessou isso, e é preciso respeitar profundamente tal identificação emotiva; mas eu também me identifiquei com o conteúdo dos meus repertórios, sem esquecer, porém, de suas formas e estilos. (Aqui cabe um adendo: meu amigo também é aspirante a escritor, portanto não se trata de diferença de áreas.)

Não consigo perder meu tempo lendo qualquer coisa, assistindo qualquer coisa, escutando qualquer coisa. É preciso destoar, porque meu repertório logo assimila quando é redundante: hoje em dia, qualquer um escreve um poema em verso livre, mas esse poema nos mostrará um novo ângulo, ou um ângulo diferente, como Whalt Whitman, Fernando Pessoa, Maiakóvski, T. S. Eliot, Drummond, Oswald de Andrade, João Cabral? Se não, por que escrevê-lo, por que lê-lo? É preferível ler esses outros, porque eles alargaram os limites dessa arte de forma inovadora e percursora, e qualquer poeta que não tenha tal ambição estará chovendo no molhado… Ezra Pound escrevia, em seu ABC da Literatura, que “Grande literatura é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível.” Essa explicação pode ser estendida a todas as artes. É preciso ser exigente, cobrar o melhor, porque as pessoas hoje em dia se acomodaram numa noção de individualismo medíocre e preguiçoso.

Não se trata de saudosismo tampouco de afirmar que “a arte acabou”, porque as possibilidades surgidas nos últimos tempos são infinitas e, agora e no futuro, sempre se pode encontrar exceções surpreendentes.

GOSTO, NÃO GOSTO

Cabe, por fim, falar em gosto. É lícito viver uma vida apenas com seus gostos emocionais, gostar de determinada música porque lembra alguém ou algo que te marcou, mas – novamente entrando no assunto da educação – o ideal é que gosto e repertório andem juntos; quem vive uma vida apenas dentro dos seus gostos pessoais, quem não é curioso, não estuda, não vai atrás de novas experiências, também está vivendo apenas com um único referencial e, na maior parte das vezes, está completamente alienado. Isso é empobrecedor, principalmente se considerarmos que a arte modifica nossas vidas. Na vida, é preciso estar sempre aberto e em constante formação e desenvolvimento. Se, diante de uma obra, você não sente nada, geralmente a culpa não é da obra, mas sua, e você só irá sentir ou captar se considerar a si mesmo como alguém em formação.

Quantas notas dentro de nós ainda não foram tocadas?

Muito importante frisar isto: para sentir algo, seja o amor de alguém, um poema que te pareça difícil, uma obra de arte que escape dos seus parâmetros, é preciso também ter repertório, treinar o olhar e o coração, nem que seja para dizer – com riqueza de linguagem e argumentos sinceros e analíticos – que realmente nada sente. Hoje, você sente as coisas que ama e gosta porque seu repertório lhe permite. Portanto, o sentimento anda junto do repertório e junto das mais variadas instâncias (seu contexto biográfico, socioeconômico, temperamental), não está simplesmente deslocado da intelectualidade e solto na cabeça da gente por acaso.

Para o senso comum, repertório é confundido com gosto. É um enorme erro pensar assim, pois muitas vezes dizemos que não gostamos de algo que não compreendemos, e quando isso acontece, é porque esse algo está acima do nosso repertório atual. Quando não gostamos de algo e esse algo é assimilado por nosso repertório a tal ponto de podermos argumentar e justificar nosso gosto e escolha de forma muito direta e arguta, aí sim estamos sendo inteligentes: mesmo quando dizemos que não gostamos. Por isso, não basta não gostar. É verdade que existe, sobretudo nas artes plásticas contemporâneas, muita porcaria, mas por que é porcaria? Seja capaz de convencer na argumentação, caso contrário o seu gosto será totalmente irrelevante.

HIPOCRISIA FINAL

Ao longo dos anos, parece que as pessoas estão mais educadas do que antes, mais preparadas do que antes, o que revela um desenvolvimento educacional, uma alimentação maior do repertório coletivo. Hoje em dia, se tolera muito melhor o que antes era horrorizado. Hoje em dia, artistas que trabalham com texto, aceitam melhor o que destitui a narrativa tradicional de personagens e enredos e centros tradicionais. Hoje em dia, em grande parte por conta do papel das escolas em ensinar essas coisas (novamente esbarramos no papel da educação), Poesia Concreta é cool, Picasso é cool, Kandinsky é cool, Pollock é cool, Rothko é cool, Duchamp é cool. Um tempo atrás, ninguém lotaria uma exposição do Mondrian, como a que houve recentemente em São Paulo. Um tempo atrás, todo mundo atacaria pedra, dizendo simplesmente que aquilo não é arte. Mudamos bastante.

Mas ainda existem preguiçosos que preferem a superfície e falam em elitismo. A ironia é que, para essas pessoas que ainda torcem o nariz, não basta não gostar: elas querem tudo na bandeja de acordo com seu repertório de obviedades e redundâncias, elas querem entender de forma lógica, mas quando vão comprar uma toalha ou um vestido, escolhem formas e cores abstratas, porque para essas pessoas o valor está no funcional, no útil. Quem “não entende” Kandinski, ataca pedra, diz que não é arte. Mas ninguém entende uma fórmula do Einstein e ele é tido como gênio…

01/07/2016

Comments

  • Einstein dizia não entender o porque das pessoas o admirarem,já que ninguém entendia nada do que ele escrevia.

    Ademar Amancio 10 de outubro de 2016
  • E se o seu amigo ler este ensaio? Vai te tachar de arrogante?

    Ademar Amancio 10 de outubro de 2016
  • Gostei da distinção entre elitismo cultural e econômico.Eu sempre fui bóia fria e sempre tive interesse pela alta cultura,enquanto os meus patrões… É claro que pela minha condição social e morar numa vila,eu tive pouco acesso a este repertório de alto valor,como você classifica.

    Ademar Amancio 10 de outubro de 2016

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