.ativismo, militância, ressentimento, potência.

As pessoas andam cansadas, impotentes, melancólicas, ressentidas, porque o poder político ou o poder de transformação pessoal lhes foi sequestrado e alienado e transferido para uma outra esfera que precisa ser resgatada. Ativistas e militantes geralmente envenenam suas próprias vidas em nome de um sonho, de um ideal, de uma fantasia, de uma luta ao lançar sombras sobre o presente, que seria terrível e imutável, e ao se iludir através de uma lógica do rebaixamento e do empoderamento que só sacaneia com nossa própria existência. Preciso dizer que se assemelham aos religiosos e aos fundamentalistas que dizem para sacrificarmos nossa vida atual, que seria uma merda e pecaminosa, em troca de uma outra, supostamente melhor no além que nunca chega?! É muito mais interessante criar nova dança de duplo movimento para este milênio, que eu chamaria de Terra e Flutuação: por exemplo, sou entusiasta, sim, da Renda Básica Incondicional para todos, sou convicto dos poderes disso para a garantia da Vocação e Potência, para o fim de injustiças materiais e econômicas, fim de empregos obrigatórios que servem apenas para a luta da sobrevivência, começo de reconfiguração do trabalhar naquilo que você mais deseja e gosta, tempo de dignidade humana, tempo de Kairós, não mais de Cronos, mas ultimamente tenho dito que não deixarei de cobrar de mim mesmo uma vida intensa, potente e criadora já, agora, sem envenenar meu presente e minha vida, sem esquecer do meu corpo, independentemente de tudo, de qualquer fator externo, de qualquer sonho meu: ensinamento principal de Rilke para o jovem poeta, ao dizer que depende dele e só dele a poesia e a vida poética, mesmo que o cotidiano lhe pareça apático, hostil, ingrato e pouco inspirador. É preciso também resgatar e rejuvenescer certos termos, porque assim como maltratamos nossa vida, maltratamos a linguagem: a “macropolítica” não pode ser necessariamente a esfera exclusiva dos partidos, das instituições, dos sistemas, dos políticos, pois é também (ou talvez seja apenas) a esfera singular do sujeito que produz e vive acontecimentos, chamada por Nietzsche justamente de a grande política, por Foucault de micropolítica ou micropoderes (em seus últimos cursos na Collège de France insistia, inclusive, na subjetividade resistente do sujeito, como a do sábio Diógenes que morava num barril e, ao ser importunado pelo rei que lhe promete mundos e fundos, diz simplesmente: Dá uma licencinha: Você está tapando o sol: Não me tires o que não me podes dar), e por Deleuze de devires, zonas de mutação. É fundamental agir como criança: curiosidade, desbravamento, busca por novas experiências que ampliem nossos limites e visões existenciais mais profundas, a ação, a obra, o prazer, a iniciativa, a realização, a criação/destruição/recriação constante de si superando-se em relação a si mesmo. Não uma atitude infantil, de mimo e combate, de acusações e ressentimentos, de impotência, de reclamação e choro eternos, de pirraça e mágoa: crítica, consciência, desobediência, reivindicação e contestação, sim, são fundamentais, mas calma lá, não rebaixe a sua potência e não envenene as infinitas possibilidades criativas do presente. Faça acontecer. Ética e Estética…

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